top of page

Quando a partitura não chega: o que a forma como tratamos os profissionais diz sobre a nossa Educação

Este texto nasceu devagar, ao longo destas férias, a partir de várias reflexões que fomos fazendo e de muitas partilhas que nos foram chegando.


Algumas partiram de experiências pessoais. Outras surgiram através das partilhas da página da Daniela e dos comentários que essas publicações foram suscitando. Outras ainda encontrámo-las noutras páginas, em conversas e reflexões sobre situações semelhantes.

São histórias diferentes, vindas de pessoas diferentes e de contextos diferentes. Mas há qualquer coisa que se repete.


Fala-se de falta de profissionais, de equipas incompletas, de cansaço, de acumulação de funções, de mudanças constantes, de erros que acontecem quando as pessoas trabalham no limite. Fala-se também de responsabilidade, de negligência, de condições de trabalho e da dificuldade de garantir aquilo que todos dizemos querer garantir: uma Educação de qualidade.

E foi precisamente dessa repetição que nasceu uma pergunta que nos parece importante fazer.


Quando alguma coisa corre mal numa escola, numa creche ou num jardim de infância, queremos apenas saber quem falhou? Ou queremos também perceber o sistema em que essa falha aconteceu?


Não para desculpar o erro. Não para retirar responsabilidade a quem a tem. Mas para perceber o que está por trás dele.


Porque talvez tenhamos normalizado demasiado aquilo que não deveria ser normal.


Habituámo-nos ao caos


Há muito que nos habituámos a determinadas coisas na Educação como se fossem inevitáveis: professores e educadores que chegam a meio do período, mudanças sucessivas de profissionais, equipas que começam um ano letivo sem saber quem estará naquela sala, ausências que obrigam quem fica a acumular funções, falta de substituições, profissionais a trabalhar no limite.


O sistema público de colocação de professores e educadores conhece há décadas estas dificuldades. E, de alguma forma, fomos aprendendo a viver com elas.


Mas há uma coisa que precisamos de dizer em voz alta: o facto de uma realidade ser frequente não a transforma numa realidade aceitável.


Uma criança precisa de continuidade. Precisa de relações estáveis, de adultos que conheçam o seu percurso, as suas necessidades, os seus medos e as suas conquistas. Uma equipa precisa de tempo para se conhecer, construir confiança, discutir, planear e aprender em conjunto.


Isto não é um detalhe das condições de trabalho. É uma condição para que exista Educação de qualidade.


A partitura e a interpretação


É aqui que chegamos a uma ideia que nos tem acompanhado nestas reflexões: a diferença entre a partitura e a interpretação.


A partitura é aquilo que conseguimos escrever: princípios, legislação, protocolos, rácios, processos, projetos, modelos pedagógicos, documentos, missão e visão.


Tudo isto é importante. Precisamos de regras. Precisamos de segurança. Precisamos de estruturas que protejam as crianças e os profissionais.


Mas a Educação acontece quando a vida real começa.


Quando é preciso decidir sem existir uma regra que diga exatamente o que fazer. Quando é preciso dar um feedback difícil. Quando uma criança desafia aquilo que tínhamos planeado. Quando um profissional erra. Quando dois adultos discordam. Quando é preciso escolher entre aquilo que é mais cómodo e aquilo que é mais coerente com aquilo em que dizemos acreditar.


É aí que a filosofia deixa de ser um documento e passa a ser cultura.


E é também aí que percebemos se uma instituição sabe realmente interpretar a sua própria partitura.


A forma como tratamos os adultos também é Educação


Talvez este seja um dos pontos que mais facilmente esquecemos quando falamos de escolas, creches e jardins de infância.


Olhamos para a relação entre educador e criança. Procuramos o educador certo, a pedagogia certa, a escola certa. Observamos os espaços, os materiais, as atividades, aquilo que é feito com as crianças.


Mas esquecemo-nos de olhar para uma relação que também diz muito sobre a qualidade de uma instituição: a relação entre a direção e os seus profissionais.


Se uma escola diz que acredita na autonomia das crianças, mas não confia nos seus educadores, alguma coisa não está coerente.


Se diz que acredita na confiança, mas gere através da vigilância e do controlo permanente, alguma coisa não está coerente.


Se diz que acredita na aprendizagem, mas não permite aos profissionais questionar, experimentar, errar e mudar, alguma coisa não está coerente.


Se diz que acredita em relações baseadas no respeito, mas não cuida das relações dentro da própria equipa, também está a ensinar alguma coisa.


A forma como uma escola trata os seus adultos também é pedagogia.


O erro não acontece no vazio


Quando acontece uma falha grave, é compreensível que procuremos imediatamente uma pessoa responsável. Há erros que têm responsáveis. Há situações que exigem responsabilização. Há comportamentos que não podem ser desculpados em nome do contexto.

Mas responsabilizar não é o mesmo que ignorar o contexto.


Um erro não acontece no vazio.


Há uma diferença enorme entre um erro acontecer dentro de um sistema robusto, com pessoas suficientes, acompanhamento, descanso e capacidade de resposta, e um erro acontecer dentro de um sistema permanentemente em modo de sobrevivência.

Não se trata de desculpar o erro.


Trata-se de perceber o que o torna mais provável.


Quando uma pessoa trabalha todos os dias no limite, acumula funções, substitui colegas, não tem tempo para parar, pensar ou recuperar, estamos perante um problema que não pode ser resolvido apenas dizendo a essa pessoa para ter mais cuidado.


E isto não é apenas um problema do público


A falta de professores e educadores não desaparece quando atravessamos a porta de uma instituição privada. A escassez de profissionais é uma realidade que atravessa sistemas e países.


E, perante essa escassez, existe um risco: começarmos a aceitar como inevitáveis, também no setor privado, condições que comprometem a qualidade da Educação.


Não podemos exigir aos profissionais que sejam atentos, disponíveis, regulados, criativos, relacionais e capazes de responder às necessidades de cada criança enquanto construímos à sua volta condições que tornam tudo isso cada vez mais difícil.


E depois admirarmo-nos quando alguma coisa falha.


Talvez a pergunta seja outra


Talvez não devêssemos procurar a escola perfeita.

Nem o educador perfeito.

Nem sequer a pedagogia perfeita.


A perfeição não existe. E talvez ainda bem. O que podemos procurar é outra coisa: instituições que reconheçam que estão sempre a aprender e a melhorar. Instituições em que as pessoas saibam por que fazem o que fazem, compreendam para onde estão a caminhar e consigam viver, nas relações entre si, aquilo que dizem querer oferecer às crianças.


Instituições que não usem a sua filosofia apenas como uma declaração bonita, mas que a consigam reconhecer no modo como contratam, integram, acompanham, remuneram, escutam, desafiam e cuidam das pessoas que nelas trabalham.


Porque uma instituição educativa não é apenas aquilo que acontece dentro de uma sala. É também aquilo que acontece entre os adultos que tornam essa sala possível.


E talvez seja por aqui que devamos começar a olhar para a qualidade.


Uma boa instituição não é aquela cuja partitura é perfeita. É aquela em que as pessoas aprendem a interpretá-la juntas.


E é talvez aí que uma filosofia deixa de ser aquilo que uma escola diz defender e passa a ser aquilo que, todos os dias, realmente vive.




Comentários


bottom of page