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O cuidado em cascata

A estrutura relacional que sustenta o desenvolvimento


Há uma ideia no trabalho de Gordon Neufeld que muda tudo quando realmente entra, não apenas como conceito, mas como forma de ver.


O cérebro é um órgão de vinculação/apego.


Não nasceu para a sobrevivência individual. Nasceu para a pertença. A inteligência evolutiva dos mamíferos percebeu, a determinada altura, que a sobrevivência estava na co-existência. E por isso o cérebro deixou cair a sobrevivência como impulso primário e ficou com a vinculação. A sobrevivência tornou-se uma necessidade, como o oxigénio, mas não um impulso. O que nos move, o que nos impele de dentro, é a necessidade de estarmos juntos.


A razão é simples e profunda ao mesmo tempo: a natureza cuida de nós através uns dos outros. Vinculamo-nos para nos cuidarmos mutuamente.


Uma cascata, não uma troca


Neufeld chama a isto cuidado em cascata, uma das imagens mais bonitas de toda a sua teoria.


Imagina uma cascata. A água desce de nível em nível, de forma natural, sem esforço, sem cálculo. O cuidado funciona assim. Os que recebem cuidado abundantemente transbordam, e esse excesso torna-se cuidado espontâneo pelos que dependem deles.


A criança que se sente profundamente cuidada começa, por iniciativa própria, a cuidar. Do boneco. Do irmão mais novo. Do animal de estimação. Do colega que caiu. Não porque alguém a instruiu, mas porque o cuidado recebido transbordou.


O desenvolvimento saudável cria naturalmente a capacidade de cuidar. Não é uma competência a ensinar. É um fruto que emerge quando as raízes estão irrigadas.


A estrutura hierárquica do cuidado


O cuidado em cascata implica hierarquia, e Neufeld não recua desta palavra, mesmo sabendo que provoca desconforto num tempo que desconfia de qualquer estrutura vertical.


Mas a hierarquia aqui não é apenas de poder, é de responsabilidade. Os adultos são responsáveis pelo cuidado das crianças. Os mais velhos acompanham os mais novos. Quem recebe cuida, por sua vez, de quem depende de si.



Neufeld usa a imagem de um átomo para tornar isto visível: o núcleo mantém todas as partículas organizadas ao seu redor, impede a dispersão, cria estabilidade e coerência para o sistema inteiro. O núcleo não existe para dominar, existe para que tudo o resto possa funcionar.

Uma família, uma sala, uma comunidade escolar funcionam pelo mesmo princípio: existe um centro que segura. E quando esse centro falha, quando o adulto não ocupa o seu lugar de responsabilidade pelo cuidado, o sistema desorganiza-se. As crianças não se tornam mais livres. Tornam-se mais ansiosas, mais agressivas entre si, mais dependentes dos pares para aquilo que só os adultos podem dar.


O que acontece sem a cascata


Neufeld olha para o presente com uma preocupação clara: estamos a sair das estruturas de cuidado em cascata.



As crianças estão a ser desalinhadas dos adultos que as deveriam cuidar, puxadas para dinâmicas horizontais de pares, para ecrãs, para grupos de semelhança, antes de terem recebido o cuidado suficiente para poderem cuidar.


Os avós estão a ser desalinhados das famílias. As gerações deixam de se ancorar umas nas outras. E quando isso acontece, o cérebro não fica quieto, procura outro lugar para se apegar. Encontra nos pares, nos grupos, nas plataformas digitais, aquilo que deveria ter encontrado nos adultos que cuidam.


Não é um problema moral. Não é falta de esforço das famílias ou dos educadores. É um problema estrutural: o cuidado deixou de cascatear. E quando não cascateia, não cria as condições para o desenvolvimento que prometia sustentar.


O apego não é horizontal


Esta compreensão tem uma implicação directa para o trabalho com crianças que vale a pena nomear com clareza.


As amizades entre crianças são importantes. Os laços entre pares têm o seu lugar e a sua função. Mas os pares oferecem igualdade, companhia e semelhança, não conseguem fornecer a estrutura de cuidado que uma relação vertical proporciona. Uma criança precisa de amigos. Mas precisa sobretudo de adultos responsáveis por ela, adultos que a mantenham próxima, que a segurem, que assumam o peso do cuidado.


Quando o apego principal de uma criança está nos pares, quando é dos pares que ela procura aprovação, orientação, sentido de pertença, o desenvolvimento fica comprometido. Não porque os pares sejam maus. Mas porque o cuidado não flui horizontalmente da mesma forma.


Segurança não vem do ambiente, vem do apego


Uma das afirmações mais fortes de Neufeld, e uma das mais perturbadoras para quem trabalha em educação, é esta: as escolas, da forma como estão hoje organizadas, não podem oferecer segurança.


Não porque sejam lugares perigosos. Mas porque a própria natureza da escola expõe as crianças à rejeição, à comparação, ao conflito, à avaliação social. A escola coloca crianças em contacto com outras crianças e isso implica sempre risco relacional.




O que realmente protege uma criança não é o ambiente físico ou as regras da sala. É a vinculação com o adulto que cuida dela. Quando uma criança sente, de forma profunda e estável, que importa para alguém, que existe um adulto que a segura, as agressões do mundo deixam marcas muito menores. Porque existe um lugar interno onde ela continua segura.


É o apego que protege. Não o regulamento.


Uma pergunta para levar


O cuidado em cascata não é uma teoria abstracta. É uma forma de olhar para cada relação que estabelecemos na sala, na escola, na formação.


A pergunta que nos fica é esta: quando cuido desta criança, estou a criar as condições para que ela possa, por sua vez, cuidar?


E a pergunta por trás dela: estou eu própria suficientemente cuidada para que o cuidado possa transbordar?


Porque a cascata funciona nos dois sentidos. Quem cuida sem ser cuidado esgota-se. E o esgotamento não é uma falha pessoal. É a física do cuidado a fazer o seu trabalho.

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Este é o último texto desta série dedicada ao pensamento de Gordon Neufeld, deste ano letivo.

A conferência que lhe deu origem foi a mais recente de Neufeld, apresentada na celebração dos 20 anos da criação do Instituto. Uma celebração densa, generosa, cheia de ideias que este texto apenas aflora. Houve muito mais naquela sala do que estas páginas conseguem conter.


Vamos rever a gravação com cuidado. Em setembro, voltamos com novas reflexões. Acreditem, há muito mais para partilhar.


Texto elaborado a partir do pensamento de Gordon Neufeld, na sua conferência mais recente (celebração dos 20 anos).


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