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Pequenos Guerreiros: O Significado Profundo das 'Armas' nas Brincadeiras Infantis

Atualizado: 4 de abr.


Muitas vezes, alguns pais colocam-nos perguntas sobre o uso de "armas" no brincar, na escola e em casa. Tendo em conta que o brincar livre pressupõe não interferir na brincadeira da criança, a não ser que esta envolva perigo físico ou emocional para ela ou qualquer ser envolvido, o que fazer se o próprio brincar se tornar um perigo?


Muitos de nós temos filhos a quem agrada brincar com armas, alguns inventam armas através de qualquer objeto, ou dos próprios dedos. A grande questão é, como nos sentimos nós em relação a isso? E porquê?


Todos os pais (ou a maioria, queremos acreditar) querem que os seus filhos cresçam para serem bons e empáticos - mas brincar com armas, para muitos, parece indicar um futuro violento. Será isto mesmo verdade? Ou será tudo um preconceito?


A maioria de vocês sabe como somos apaixonadas pela infância, e que queremos que todas as crianças tenham uma infância tão livre quanto possível, das influências tóxicas do mundo moderno. Mas não se trata de um doce e nostálgico constante olhar para o passado, o nosso objetivo é um apelo, apoiado pela pesquisa, para que se ofereçam às crianças as experiências e os ambientes de que elas verdadeiramente precisam para crescer!


Mas, a verdade é que, para se poder voltar a essa liberdade (de tempo e espaço) de vivenciar as experiências e ambientes de que as crianças precisam, é necessário claro, espaço e tempo, algo que os pais, hoje em dia, muitas vezes não têm. O que leva, a que muitas das situações vivenciadas no brincar da criança, hoje em dia, sejam interpretadas, muitas vezes, erradamente, de forma tendenciosa ou unilateral, para não dizer prejudicial.


Vamos-vos contar uma história pessoal (Sara), que foi discutida entre nós na altura, e que revisitamos agora..





Há cerca de uns dez anos atrás, surgiram ou ressurgiram as pistolas/armas, o que lhe queiram chamar, as Nerfs (passamos a publicidade). E nesse ano, no início do ano escolar, por volta de setembro, tivemos uma reunião de pais, na escola do meu filho, com um convidado especial, um conhecido pediatra, com vários livros editados, onde se falou sobre desenvolvimento infantil e o brincar.


Lembro-me bem que entre várias questões, surgiu a questão dos rapazes e as tais armas, e como isso estava a causar distúrbios nos recreios da escola, e alguns pais eram da opinião que estavam a incentivar comportamentos violentos.


O que acontecia era que, algumas crianças se sentiam melindradas ao serem atingidas, havia muita exaltação no recreio, choro e gritaria, e questionou-se se deveriam permitir aquele tipo de brinquedo/brincadeira entrar na escola (na altura as armas iam para a escola mas não podiam sair das mochilas, só para mostrar aos amigos). Mas as brincadeiras surgiam na mesma, com paus, dedos ou o que a imaginação sugerisse.


Como qualquer tema deste teor, levantou-se uma imensa discussão na sala, com o lema: "os rapazes são rapazes", "isso sempre foram brincadeiras de rapazes", (quando no entanto também havia raparigas atiradoras) - isto daria aqui outro artigo!


Mas, o que mais me ficou gravado dessa reunião, foi quando os pais (homens) se indignaram e, criou-se um ambiente na sala que se assemelhava a um clube de cavalheiros, como assistimos nos filmes antigos.


Grande parte deles afirmava não perceber que tipo de crianças eram estas, questionava se era normal que as crianças se sensibilizassem com este tipo de brincadeiras; defendia que vários deles tinham uma coleção destas armas em casa, e que nada lhes tinha dado mais prazer que, andar a brincar às guerras com os filhos, durante esse verão! Muitos deles falavam sobre ansiar chegar a casa para esses momentos de diversão com os filhos! Discutiam modelos de "armas", e por aí fora...


Dou-vos aqui um momento para refletir e vamos prosseguir com a nossa exploração deste tema. Já voltaremos a esta história.

Ao reflectirmos sobre o tema deste artigo, deparámos-nos com a “Conferência: Recuperação da Infância no Século 21” realizada nos inícios de 2010, nos Estados Unidos, e ficámos presas ao discurso dado pela Dra. Sharna Olfmann.


O relato dela indicava que metade das crianças do mundo estão a morrer de fome ou a morrer de doenças que sabemos como prevenir.


“Milhões de crianças nos países ricos são rotineiramente subjugadas por drogas psiquiátricas, para que possam encaixar nos sistemas letais de educação, enquanto lutam contra a obesidade e consomem horas de media violentos todos os dias”

Dra. Sharna Olfmann.


Daí ela passou a expor as duas necessidades inatas das crianças que, quando negligenciadas, ameaçam sua integridade psicológica, em vez da física. Essas necessidades são as de um relacionamento amoroso, confiável ​​e sustentado com os cuidadores e Brincar.


“ Milhares de estudos, que abrangem quatro décadas, estabeleceram indiscutivelmente que o brincar criativo é catalisador do desenvolvimento social, emocional, moral, motor, perceptual, intelectual, linguístico e neurológico. Muitos dos nossos maiores pensadores localizam a sua capacidade de pensamento original e profundo, nas suas habilidades imaginativas, desenvolvidas pela primeira vez por meio de brincadeiras criativas, na primeira infância.

Dra. Sharna Olfmann



Parece-nos não haver dúvidas que brincar é fundamental! E os especialistas todos parecem concordar!


O que queremos esclarecer agora é, se o brincar é fundamental: haverá um brincar que alimenta; mas também haverá um brincar que atrapalha o crescimento saudável das crianças? Esta parece ser a base da polémica deste tema.


À primeira vista, isto pareceu-nos que poderia ser algo facilmente observável, mas entendemos que a nossa versão de sentido comum, não é mais comum, pois a verdade é que a maioria não tem tempo. E, a falta de tempo veio alterar a nossa percepção de muita coisa. Mas acreditamos, sabemos, que basta parar uns minutos, respirar, limpar a mente (o mais possível) e observar a situação em causa, para conseguir tirar as nossas conclusões, e tomar decisões fundamentadas. ( Como este momento, que decidiste estar aqui a ler-nos. )


Vamos então tentar ajudar, nós pais, a estruturar e esclarecer as nossas reações às brincadeiras dos nossos filhos, e em especial, no que respeita ao brincar com armas ou às guerras, lutas.


"Brincar é o ensaio geral para a vida inteira - nunca deve ser julgado como certo ou errado." Dr. Deborah MacNamara


Ou seja, o brincar deve acontecer fora da realidade da vida quotidiana. Supõe-se que seja isento de consequências e riscos, para que a criança possa brincar sem ter de se concentrar em nenhum resultado específico, ou no evitar determinadas acções.


Enquanto brincam, as crianças usam o seu mundo interior para criar um novo cenário, por meio da imaginação e da fantasia.Todos nós já vimos os nossos filhos serem chefes de cozinha, professores, bailarinos, polícias, e, mais recentemente animais e monstros ... ( querem um post sobre este assunto?)


O brincar é onde a criança pode morrer, renascer, casar e divorciar-se, quantas vezes quiser, sem consequências e sofrimento. É onde ela pode desabafar as suas emoções, e experimentar poucas repercussões.


Quantos de nós escutamos os nossos filhos a gritar e gritar, um(s) com o(s) outro(s), e quando finalmente resolvemos ver o que está a acontecer, com medo que a essa altura já haja sangue,

( ou quando gritamos um: que é que se passa aí? ), eles param de repente, olham para nós com surpresa e dizem: ‘Mas mãe, nós só estamos a brincar às lutas....!” ?


E, agora as armas...


As brincadeiras com armas são centenárias e comuns, tanto em rapazes como em meninas, apesar de serem mais comuns nos primeiros. São brincadeiras que estão baseadas no controlo e poder, e sempre fizeram os encantos de alguns, e não tanto de outros. E, a verdade é que o uso de armas faz parte, ainda hoje, do dia a dia de muitas famílias, embora não seja uma realidade comum na Europa, apenas na Escandinávia.


Olhando para a história da humanidade, estas são brincadeiras que estão mais ligadas biologicamente aos rapazes por uma única razão, devido à função social dos seres do sexo masculinos de protecção e defesa, nas suas comunidades, ao longo da história.


Temos também os exemplos do Cavaleiro/Soldado/Guerreiro, enfim o Herói, que é um arquétipo legítimo e digno, que a criança encontra em todos os contos de fadas, nos contos e histórias nórdicas, celtas, hebraicas, gregas, romanas e mundiais, até mesmo em histórias de épocas futuras, e estes geralmente têm uma arma.


Esta imagem vive na criança, é a imagem do bem contra o mal.




Os heróis e heroínas, neste tipo de histórias infantis, são geralmente jovens, inocentes e sozinhos, idealmente fortes, encantadores e possuem um coração nobre. E esta apresentação de jovens heróis inocentes, está ligada à ideia de que os heróis devem passar por jornadas que significam a transformação da imaturidade (inocência) para a maturidade (experiência). Os heróis devem ter um coração nobre porque estão destinados a ser os salvadores, que estão

dispostos a se sacrificar pelos outros. Eles devem ser indivíduos altruístas. A nosso ver representam o nosso papel na terra como humanos, e que a criança reconhece internamente, a sua luta interna para se superar, seremos só nós?


E daí, por exemplo, nas Escolas Waldorf, durante a época de Micael (esperem pelo post de Setembro, aqueles que não estão familiarizados com esta celebração), as crianças mais velhas fazem as suas próprias espadas de madeira.

E temos vários cavaleiros e cavaleiras a combater dragões nos nossos jardins de infância, durante dias. Brincadeiras que se repetem todos os anos e, só quem nunca as observou, não perceberá o calor no coração, e o brilho nos olhos das crianças que são, naqueles momentos, verdadeiros heróis.


Também todos nós conhecemos, ou sabemos, de famílias em que um pai ou mãe caçam, o que significa trabalho para alguns, ou desporto para outros. E, muitos podem incluir as crianças nesta actividade, apesar de, mais uma vez, na Europa, isto ser cada vez mais incomum.

E creio que todos percebemos que numa área com, digamos, uma população excedente de veados ( como nos Países Baixos e Escandinávia), caçar e comer carne de veado é uma forma de alimentar uma família além de prevenir causar um grande impacto no meio ambiente. ( O objectivo aqui não é abrir um debate sobre práticas ecológicas, caça e coisas similares, mas pensamos que nos ajuda a estruturar a reflexão. ) O uso de armas está inscrito portanto na nossa biografia humana.


Acreditamos que para muitos pais outro factor é, que o brincar com armas, implica quase sempre o lutar. Poderá ser um inimigo comum ou próprio, imaginário ou real. E aqui muitos, devido a restrições sociais e culturais, envilecem imediatamente a prática...


Mas, lutar com outras crianças e/ou com os pais ou adultos significativos, é saudável e ajuda a desenvolver os sentidos de equilíbrio e tato da criança. Agarrar, lutar, trepar, rolar, empurrar, pular e fazer outras coisas ousadas ajudam-na a se encontrar e ir ao encontro do mundo, literal e figurativamente. É um momento que permite um encontro genuíno e vigoroso e permite a união através do toque físico, e desenvolver competências.


Vantagens do brincar "às lutas":


  • desenvolve o auto-controle sobre impulsos e músculos (por exemplo: controlar com que força se bate ou empurra);

  • o aprender a diferença entre comportamentos aceitáveis ​​e não aceitáveis;

  • o aprender a criar regras e jogar de acordo com as regras;

  • diminui o uso de agressões físicas prejudiciais.


No final, a questão é “onde estabelecemos o limite?” e a resposta é: “ brincar de forma que ninguém se magoe”.


Ou seja, ao longo da nossa história fomos sempre encontrando jogos, brincadeiras e desportos que servem para treinarmos o controlo e o poder, lutar com o outro e com os nossos próprios limites, estabelecer regras e ligações.

Como já vimos as brincadeiras com armas ou de lutas, promovem a inclusão social e desenvolve competências, por estranho que nos possa parecer no mundo de hoje!


E lembrem-se, o brincar não é real, e não deve ser interpretado como tal! Se todas as crianças estão realmente confortáveis em brincar com armas, é melhor que esta brincadeira aconteça em ambientes controlados quando são pequenas, apenas para garantir que todos estão envolvidos na brincadeiras, e não poderão haver vítimas acidentais.

Convém que outras crianças não sejam inadvertidamente "mortas" ou "derrubadas" por um tiro numa brincadeira em que não estão, ou não querem participar.


Nos momentos de brincadeira livre, se há muitas crianças e poucos adultos, os jogos de armas podem ter um efeito pouco saudável em ambiente de escola, há que avaliar cada situação.


No entanto, se uma criança "disparar" noutra criança ou adulto que não esteja a brincar com ela, e isso for causa de desconforto, devemos responder da mesma forma que respondemos se uma criança insulta ou provoca outra criança. Atender a vítima e o vilão com a mesma abertura e compaixão.


Como dissemos, há muita aprendizagem social que ocorre.


Há a negociação e o estabelecer regras: - o contracto social. O grupo de crianças decide quantas vezes cada um deve levar um tiro para morrer, como pode voltar à vida, quais são as regras para determinar quem foi atingido ou não, e o Como. O que exige muita conversa e planeamento, para as crianças com menos de 6/7 anos, que não deverão ainda estar nesta fase de raciocínio lógico, este aspecto existe mas é menos elaborado.


( Aqui aproveitamos para lembrar a importância de o brincar envolver grupos heterogéneos.)

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Uma chamada de atenção é que mesmo que todos os argumentos que demos, não vos tenham convencido da inocência do brincar com armas ou às lutas. Não podemos deixar de advertir que: proibir o uso de armas antes dos 6/7 anos ( em que a capacidade raciocinio lógico ainda está pouco desenvolvida) pode levar as crianças a comportamentos sorrateiros. " O fruto proibido é sempre o mais apetecido ", e proibir numa fase em que a criança não consegue verdadeiramente perceber o porquê, só vai aumentar o desejo e a curiosidade da criança, que é um cientista nato, por aquilo que não lhe é permitido. Possivelmente ela tentará a todo o custo encontrar maneira de satisfazer a sua curiosidade, o que será sem dúvida, menos saudável....


E, como sabemos, todas as crianças precisam de ritos de passagem e encontros genuínos.

No mundo actual, esta é uma falha enorme que estamos a cometer com as nossas crianças, (mas mais uma vez, isto virá noutro post) e para muitas, experienciar estes momentos de luta e contacto, é possivelmente o que alimenta essa necessidade. Como aqueles pais e filhos da escola do meu filho (Sara).

Aqueles momentos de brincadeira entre gerações, durante aquele verão, alimentou o tal relacionamento amoroso, confiável ​​e sustentado com os cuidadores e assegurou a necessidade de brincar (acreditamos dos pais e dos filhos), que nos falava a Dra. Sharma Olfmann.


Num mundo que passa a correr, esse foi um momento de verdadeira união e harmonia familiar, ao contrário do que poderia sugerir aquele discurso, eles não disparavam uns contra os outros, mas sim, todos contra o inimigo comum a falta de tempo para ser e estar. E a violência só existe, se nós acreditarmos nela!



EXTRA: Para os interessados pequeno video sobre o brincar as lutas, em inglês



II PARTE


Sabemos que há sempre um lado "B" de qualquer história...


Agora vamos falar de rapazes, lutas, desenhos animados, videojogos e rótulos...

As crianças, como já dissemos, precisam de brincar, brincar, brincar, brincar e brincar um pouco mais. Mas para isso, elas também precisam de espaço aberto, natureza, ar puro e tempo. Precisam de árvores para trepar, bolas para chutar, lama para espremer e cordas para saltar.


Devem ter permissão para usar a sua incrível imaginação e explorar o mundo com seus corpos por inteiro.


Todas as crianças são biologicamente programadas para se tornarem cientistas, aventureiros e exploradores, usando todos os seus sentidos para tentar descobrir como o mundo funciona. E sabemos também que, biologicamente, os rapazes (em geral) têm maior energia e força física, e por isso, muitas vezes são rotulados de exaustivos (os rótulos são variados em nomenclaturas).


A verdade é que todas as crianças querem se mover e explorar, no entanto, os rapazes têm uma fome adicional de tocar em tudo e de interagir com outros objetos e brinquedos. São muito mais físicos e menos verbais. (ver post meninos vs meninas)


O que é mais observável na fase do jardim-de-infância é que muitos rapazes de quatro anos ainda lutam com a comunicação verbal e tendem a reagir por meio de ações físicas. É por isso que costumamos dizer que “o comportamento dos rapazes é a sua linguagem”.


Surge um aumento de energia e de necessidade de atividade nesta fase do jardim-de-infância, e os rapazes de quatro a seis/sete anos geralmente precisam de mais liberdade para se mover, muito espaço para se mover, muitas oportunidades para serem aventureiros e corajosos, e ter momentos em que são autónomos e capazes de fazer as suas próprias escolhas - mesmo que lhes causem dor física, mais do que às raparigas. (estamos a generalizar, sabemos que cada um não é apenas a sua biologia)


No entanto, o que acontece é que o nosso sistema, cada vez mais, tenta conter as crianças que precisam de estar a explorar o mundo com energia, entusiasmo e muito pouco pensamento. Em vez disso, estas recebem aulas, horários, regras estritas, ecrãs, alguém que os manda ficar quietos, enfiados "dentro de casa", alguns já a aprender a ler e a escrever, e a não falar a menos que levantem a mão e durante apenas o seu tempo.


Isto a acrescentar que muitos passam mais horas em dispositivos digitais, ou sentados num carro no trânsito, do que fora de casa, correndo soltos e livres. Estas são realidades que não se misturam, ou não deveriam misturar-se com qualquer criança pequena, mas é ainda mais difícil para a maioria dos rapazes.


E o resultado está nas pesquisas, começámos a ver, ao longo dos anos, um número maior de rapazes com problemas comportamentais e diagnósticos, quando têm entre quatro a seis anos de idade.


O que aconteceu?


Frustração e muita outra coisa. Um acumular de energia que é internalizado (e surge ansiedade, depressão, comportamento de isolamento, mau humor, agressividade e assim por diante), ou exteriorizado, quando não existem alternativas (chutar, morder, bater, atirar, socar, gritar, berrar, choramingar, etc.) e, na verdade, de certa forma, estes últimos comportamentos são mais saudáveis do que interiorizar os restantes, mas definitivamente não são socialmente aceites. E surgem os rótulos e os "problemas comportamentais"!


No entanto, quando estes comportamentos surgem, não é culpa das crianças, é totalmente nossa a culpa por não compreendermos ou atendermos às suas necessidades!

Esta frustração também não tem nada a ver com a testosterona (como muitos ainda hoje defendem, visto os rapazes serem os que apresentam mais dificuldades que as raparigas com estas imposições, e supostamente terem maior presença da hormona). Por favor, não continuemos a culpar um produto químico pelas falhas da sociedade moderna!


A questão é que, se colocarmos a culpa na testosterona, estamos a apaziguar a nossa consciência social: "- Oh, está tudo bem, o Joãozinho está apenas a ter um pico de testosterona!", mas também a permitir algo especialmente perigoso, o não lidar com a questão REAL, que já nos assalta há demasiado tempo.


E surge o que nos dizia a Drª Sharna, as tais crianças nos países ricos que são rotineiramente subjugadas por drogas psiquiátricas para que possam encaixar nos sistemas letais!


E os chamados problemas comportamentais, surgem mesmo quando as crianças têm espaço e algum tempo para brincar, pois espaço e tempo ainda assim são limitados, insuficientes. E aqui surgem também, e cada vez mais, crianças que estão "presas" a determinadas brincadeiras.


E é nosso trabalho, como pais e educadores, ajudar a criança que está "presa" a uma brincadeira, seja brincar com armas, lutas, ou querer ser sempre a mesma personagem dos desenhos animados, ou videojogo. Heis um sinal de alarme que a criança nos está dar.


Muitos adultos pensam que estes comportamentos denotam paixões das crianças, outros culpam a influencia dos media, dos jogos, dos pares, etc... Mas, a maioria das vezes, estas brincadeiras repetitivas são um gesto imitativo da vida - Mostra-nos a vida arrítmica da criança, nas vidas onde não há possibilidade de ritmo, surgem as brincadeiras rápidas e repetidas que ajudam a despender energia e promovem um contacto fácil e imediato.


Hoje em dia, as nossas crianças vivem, na sua maioria, em carência, cada vez mais, há uma forte necessidade de ligação e amizades.

Mesmo em tempo de escola, muitas têm muito pouco tempo para verdadeiramente socializar. Os nossos jardins-de-infância parecem-se mais Start Ups em miniatura, do que a locais da infância ( pedimos desculpa aos colegas mas é verdade), há sempre o projecto, a actividade, o passeio, a festa, etc... tudo dentro de um calendário fixo e restrito.


Como todos sabemos, temos hoje uma enorme quantidade de filhos únicos, e uma maioria das famílias com dois filhos. As nossa crianças poucas têm a oportunidade de brincar na rua, as suas brincadeiras ou "playdates" (para usar um estrangeirismo que facilita), são controlados e escolhidos, pois a maioria das nossas vidas não permite essa liberdade e há muita desconfiança. Normalmente não existem amigos e familiares com quem brincar com idade diferenciada. E as crianças vêm-se sós, com adultos ocupados e pares limitados.


E aí quando há oportunidade de brincar, porque nos encontrámos no parque ou temos uns minutos de recreio...


...Surgem estas brincadeiras!


Quando sabemos que só temos "x" tempo para brincar e possivelmente pouco onde usar a nossa imaginação, este tipo de brincadeira facilita criar grupos de brincadeira. Se um começa a "disparar" de certeza que, rapidamente alguém se juntará, e se eu imitar aquele desenho animado ou videojogo (as conexões virtuais das nossas crianças), há de haver possivelmente quem o reconheça imediatamente e se junte. Isto mesmo que nunca tenham assistido a um episódio, ou ao filme, ou ao jogo!

Algo que testemunhámos várias vezes, nos últimos anos, no nosso jardim de infância são as várias Elsas que cantavam e dançavam, sem nunca terem posto os pés numa sala de cinema! Ou, as dezenas de Faíscas MacQueen, que faziam corridas infinitas à volta da casa (escola), entre outros!


E depois de todas estas observações, a conclusão é que estas brincadeiras surgem muito mais, e com muito mais frequência, em ambientes escolares com ambientes muito velozes, em que as crianças têm tempo e espaço limitado para brincar, e muitas vezes pouco material estimulante para o mesmo (olhem para a pobreza ou artificialidade da maioria dos espaços exteriores das escolas).


E então, o brincar com armas (reais ou fictícias) ou a reprodução repetitiva das conexões virtuais surge como solução interna da criança. A agitação interna tem um escape, a agitação da brincadeira imita a agitação interior - a brincadeira espelha o estado anímico da criança, e mostra-nos uma necessidade de abrandar o ritmos de vida da criança.


Claro que, muitas vezes, há também que avaliar o tempo em ecrãs, que deveriam ser praticamente inexistentes, mas que sabemos que não corresponde à realidade, sejam estes televisão ou videojogos. Especialmente ter atenção que as representações de armas na televisão e nos videojogos que não deveriam ter lugar na vida de uma criança antes dos 9/10 anos. Por mais que acreditem que elas conseguem processar essas imagens todos sabemos que o seu desenvolvimento não o permite ainda. O que acontece é que há crianças que ao ser totalmente expostas, inclusive a imagens de violência real tornam-se apáticas a essa realidade, mas não quer dizer que tenham isso resolvido em si. ( Dará um outro post.)


E o que acontece, estas são as brincadeiras que muitas vezes terminam em lágrimas; e há que ter atenção. Pois este tipo de brincadeiras leva a que a criança ( que a origina) consiga ter um pouco de controlo, sobre o seu tempo, sobre a sua acção, sobre o seu espaço, sobre as suas ligações, sobre si. Mas quando todas, ou a maioria querem e têm a necessidade de controlo, ou quando o controlo é excessivo, isto traz consigo muitas vezes situações de conflito. Que leva ao envilecer das brincadeiras com armas e as lutas. E envilece também os nossos rapazes, que pura e simplesmente estão a disparar para todos os lados a ver se alguém é atingido e lhes preste a devida atenção!


Agora as boas notícias!


A solução, em situações em que este parece ser o único tipo de brincadeira que surge, é simples:

Criar tempo de brincar livre! Verdadeiramente livre!


Encontrar sugestões alternativas, tudo o que permita a criança usar essa energia acumulada em algo com significado.

As crianças precisam realmente de ter tempo e espaço para brincar, sem regras e sem limites.

Precisam também de estar na presença de trabalho físico significativo: lavar, cavar, presenciar fogueiras de verdade, rachar lenha, podar, cortar, mover coisas pesadas, passar roupa, cozinhar e muito mais. Para terem outros exemplo que imitar que não sejam as as "nossas lutas diárias" ou as figuras de ficção.

Precisam de ter crianças de todas as idades lhes sirvam de exemplo e, a quem elas, por seu lado, possam servir de exemplo.

Assim conseguirão passar de uma brincadeira aparentemente "agressiva-destrutiva" para uma brincadeira criativa-livre.


Esperemos que estes pensamentos sejam úteis. E gostaríamos muito de ouvir as vossas experiências e opiniões.


Usem a caixa de comentários ou enviam um email para info.educa.sao@gmail.com! Obrigada





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