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Diferenças no Desenvolvimento da Linguagem em Crianças: Um Manifesto em Defesa das Necessidades dos Rapazes

Atualizado: 4 de abr.




"Os homens são de Marte e as mulheres são de Vénus."

De onde provém esta expressão? Não consegui encontrar a resposta, mas esta tornou-se popular há uns anos atrás, através do autor e conselheiro de relacionamentos John Gray.

Mas hoje, no mundo do politicamente correto, será apropriado falar das diferenças entre os sexos?


Acreditamos que sim, pois, embora sejamos todos iguais em termos humanos, biologicamente somos distintos, e essas diferenças vão muito além dos nossos aparelhos reprodutores.


Como mãe de um rapaz (o meu primeiro filho), pude observar em primeira mão como os rapazes se diferenciam das raparigas em diversos aspetos, e acredito que é importante levar essas diferenças em consideração no seu processo educativo.


Eis um manifesto em defesa das particularidades dos rapazes!

Comecemos...


  1. Será verdade que meninos e meninas desenvolvem a linguagem de maneira diferente?

  2. O teu filho é o único que não fala num grupo de crianças?

  3. O teu filho está a demorar mais a começar a falar do que a irmã?


Não te preocupes, pois várias pesquisas demonstram que tudo isso tem uma razão de ser. Com efeito, está cientificamente comprovado que, em geral, as raparigas começam a falar mais cedo do que os rapazes, embora a diferença seja de apenas alguns meses. Existe uma faixa etária normalmente aceite dentro da qual a maioria das crianças começa a falar, que situa-se entre os 18 e os 24 meses (meras referências). As raparigas geralmente encontram-se na fase inicial desta linha de tempo, enquanto os rapazes estão no final.


No entanto, poderíamos contestar isso com o seguinte exemplo: o meu filho começou a formular frases completas aos 15 meses, enquanto a minha filha, com a mesma idade, sempre demonstrou um domínio excepcional na criação de uma língua própria. Isso contraria o que os livros dizem. Estarão, então, os estudos errados?


"Parece que os rapazes apresentam capacidades "mais fracas" ou "mais lentas" na aquisição da linguagem. Os rapazes representam mais de 70% dos que começam a falar tardiamente e apenas 30% dos que começam precocemente. Os estudos sobre o desenvolvimento inicial da linguagem (nos primeiros três anos de vida) identificam diferenças sistemáticas entre rapazes e raparigas no processo de desenvolvimento inicial da comunicação e aquisição da linguagem. Essas diferenças não se manifestam apenas no desenvolvimento do sistema linguístico, mas também nas habilidades gerais de comunicação social. Os rapazes ficam atrás das raparigas no desenvolvimento de muitos recursos de comunicação, como o contacto visual, o uso de gestos, a imitação de gestos, a atenção conjunta e as referências sociais, entre outros." (1)


Pela primeira vez, os investigadores conseguem mostrar que, durante as tarefas linguísticas, as áreas do cérebro associadas à linguagem funcionam de forma mais intensa nas raparigas, e que os rapazes e as raparigas recorrem a partes muito diferentes do cérebro para realizar essas tarefas. Nas raparigas, o processamento da linguagem é mais abstrato, enquanto nos rapazes é mais sensorial.


Em resumo, diversos estudos revelaram que a parte do cérebro associada à aprendizagem de línguas é mais ativa nas raparigas do que nos rapazes. Além disso, nas raparigas, diferentes áreas cerebrais estão envolvidas nas tarefas relacionadas com a linguagem, o que cria uma distinção básica de género no desenvolvimento da linguagem infantil.


Como dissemos, descobriu-se que o processamento da linguagem é mais sensorial nos rapazes e mais abstrato nas raparigas. Os estudos sugerem que os rapazes tendem a estabelecer associações entre o que veem e o que ouvem, ou seja, entre estímulos visuais e auditivos. Apenas quando ouvem ou veem uma palavra é que o seu significado real "clique". Isto pode levar a dificuldades quando entram na escolaridade obrigatória, pois deparam-se, por exemplo, com letras que têm diferentes sons.


Há sugestões de que esta diferença de género no desenvolvimento da fala se deve a disparidades no hemisfério cerebral esquerdo, que é mais desenvolvido nas raparigas do que nos rapazes. No entanto, à medida que as crianças crescem, essa diferença diminui.


Mas por que razão os rapazes também são mais suscetíveis a problemas de linguagem?


Como já referi, os investigadores descobriram que as raparigas apresentam uma ativação significativamente maior nas áreas cerebrais relacionadas com a linguagem do que os rapazes. Durante as tarefas, as informações chegam às áreas de linguagem do cérebro das raparigas, associadas ao pensamento abstrato através da linguagem. A precisão do desempenho está correlacionada com o grau de ativação em algumas destas áreas de linguagem.


No entanto, surpreendentemente, isso não se aplica aos rapazes. O desempenho dos rapazes, ao lerem palavras, depende de como as áreas visuais do cérebro estão a funcionar. Já ao ouvirem palavras, o desempenho dos rapazes depende da intensidade das áreas auditivas do cérebro.


Se este padrão se refletir no processamento da linguagem que ocorre na sala de aula, poderá fornecer informações valiosas sobre métodos de ensino e avaliação.


Devido à abordagem sensorial dos rapazes, podem ser avaliados com maior eficácia com base no conhecimento adquirido nas aulas através de testes orais e no conhecimento obtido pela leitura através de testes escritos. Nas raparigas, cujo processamento da linguagem parece ser mais abstrato, essas diferentes abordagens de avaliação parecem ser desnecessárias.


Em resumo, muitas vezes os problemas de linguagem estão relacionados com a forma como avaliamos as nossas crianças!


Então, por que é que os meus filhos pareciam fugir à regra?


Na verdade, eles não fugiram; com o crescimento e a idade, tudo mudou.


Hoje em dia, a minha filha tem um vocabulário mais articulado para se expressar e consegue fazê-lo de forma mais criativa na escrita, o que resulta num percurso escolar muito mais tranquilo. Enquanto o meu filho, que fez parte dos 30% de rapazes que desenvolvem precocemente a linguagem, à medida que cresceu e progrediu no seu percurso escolar, perdeu a confiança na sua capacidade de se expressar. Porquê?


Gradualmente, ele começou a depender da audição durante as aulas, tornando mais difícil a transposição dessa informação para o papel quando tinha de ser avaliado. O seu temperamento mais introvertido faz com que ele não goste de se expor e, consequentemente, não se destaca verbalmente como poderia, o que faz em casa, mas não nas aulas.


Assim, toda a vantagem que ganhou nos primeiros anos de vida, talvez devido a ser o primeiro filho e neto, o que lhe proporcionou um rápido desenvolvimento da linguagem (graças à leitura de muitas histórias e conversas com adultos, entre outros fatores), foi progressivamente cedendo à norma e enquadrando-se nos parâmetros descritos pelos cientistas. A biologia prevalece, e até as hormonas parecem influenciar!


"(...) constatou-se que o estrogénio (hormona feminina) está correlacionado com habilidades sociais e verbais aprimoradas, promovendo o crescimento dos centros de linguagem e áreas relacionadas no cérebro, enquanto a testosterona (hormona masculina) tem o efeito oposto.

Em resumo, parece que a organização funcional do cérebro feminino confere às mulheres uma vantagem inerente na aquisição do sistema de comunicação e linguagem em relação aos homens. Os mecanismos específicos que conduzem e contribuem para o desenvolvimento dessa vantagem ainda não foram totalmente descobertos." (1)


Em conclusão, é uma questão de biologia! Meninos e meninas são muito mais diferentes do que imaginamos, e essas diferenças devem ser tidas em conta em várias fases do seu crescimento!


Vamos considerar a história da evolução da humanidade:


"Entre todas as espécies da Terra, os humanos possuem uma capacidade única de comunicação através de um sistema de comunicação simbólica, ou seja, a linguagem verbal e escrita. Essa habilidade ajudou a humanidade a prosperar e deu-lhe inúmeras vantagens sobre as outras espécies. A linguagem altamente sofisticada possibilitou aos humanos comunicarem de maneira precisa e complexa, permitindo uma organização eficaz dentro da tribo. A complexidade da linguagem humana pode ser ilustrada pelo facto de que, em média, uma pessoa de 20 anos possui um vocabulário de aproximadamente 42.000 palavras.

Historicamente, as fêmeas primatas estavam envolvidas na criação de filhos, na colheita de alimentos e na construção de ferramentas domésticas, enquanto os machos tendiam a caçar e a matar. Acredita-se que o 'trabalho feminino' tenha contribuído para o desenvolvimento das áreas relacionadas com a fala, enquanto o 'trabalho masculino' tenha contribuído para a superioridade visuo-espacial masculina.

Em resumo, estudos sugerem que as diferenças de género na comunicação humana e nas habilidades linguísticas podem resultar das diferenças nas tendências sociais entre homens e mulheres, que estão 'fundamentalmente enraizadas na nossa herança biológica e evolutiva'." (1)


Portanto, vamos apoiar os nossos rapazes e estar atentos ao longo do seu processo educativo para não permitir que o sistema os prejudique e os faça sentir menos capazes. Evitemos comparações e procuremos chamar a atenção para as necessidades específicas de cada um sempre que possível!



(1)Sex differences in early communication development: behavioral and neurobiological indicators of more vulnerable communication system development in boys in Croatian Medical Journal/Abril 2019 - Shir Adani and Maja Cepanec


NOTA:


Diversos estudos têm explorado as diferenças entre meninas e meninos no que diz respeito à aprendizagem da linguagem e ao desenvolvimento cerebral. Um estudo da Northwestern University destacou que existem diferenças biológicas entre os cérebros dos meninos e meninas que podem influenciar a aprendizagem da linguagem. Este estudo sugere que tais diferenças são intrínsecas e têm implicações significativas para o entendimento de como cada género processa a linguagem.


Além disso, pesquisas sobre estratégias educacionais baseadas em género sugerem que adaptar abordagens de ensino às necessidades distintas de meninos e meninas pode ser benéfico. Por exemplo, um estudo realizado na Douglas Elementary School mostrou que ao implementar estratégias que levam em conta as diferenças, tanto meninos quanto meninas apresentaram melhorias significativas em leitura e escrita. Este estudo enfatiza a importância de se considerar as diferenças de género na educação e sugere que as escolas podem precisar de adaptar a sua infraestrutura e métodos de ensino para acomodar e potencializar a aprendizagem de ambos os sexos.



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