top of page

Contravontade: a resistência que não é desobediência

Há uma cena que se repete em creches, em jardins de infância, em casa, no parque. Um adulto pede algo a uma criança. E a criança recusa. Não negocia. Não argumenta. Não chora, pelo menos não no início. Apenas recusa. Como se um interruptor interno se tivesse activado e desligado a possibilidade de cooperação.

Se for a mãe a pedir, talvez já não tivesse acontecido. Ou se fosse a educadora habitual, em vez da nova. Ou se fosse antes da entrada na sala, em vez de logo à chegada. A mesma criança, com o mesmo pedido, responde de formas radicalmente diferentes consoante quem está à sua frente e em que momento da relação esse alguém está.

Chamamos-lhe teimosia, fase, "está difícil". E perdemos o que está mesmo a acontecer.


O que Otto Rank descobriu, há quase um século


A palavra existe há mais tempo do que se imagina. Foi Otto Rank, psicanalista vienense, discípulo de Freud que depois se afastou para construir o seu próprio caminho, quem identificou e nomeou este fenómeno. Chamou-lhe contravontade (counterwill): o impulso instintivo de resistir a qualquer vontade que venha de fora, percebida como alheia.


Rank observou-o no desenvolvimento infantil normal, mas também na vida adulta, sobretudo em relações onde a autonomia se sente ameaçada. Para ele, era um movimento essencial de afirmação do eu, não um defeito, mas uma força.


Gordon Neufeld retomou o conceito quase um século depois e fez-lhe uma coisa decisiva: situou-o dentro da teoria do apego. O que Rank tinha descrito como afirmação do eu, Neufeld mostrou ser, ao mesmo tempo, um mecanismo de protecção da ligação. A contravontade não recusa qualquer orientação. Recusa a orientação que vem de fora do círculo de apego. É o sistema imunitário da vontade, e como qualquer sistema imunitário, distingue o próprio do estranho.


A função protectora


Imagina, por momentos, o cenário inverso. Uma criança pequena que aceitasse, com a mesma docilidade, ser orientada por qualquer adulto. Que respondesse ao desconhecido na rua com a mesma cooperação que oferece ao pai. Que se deixasse levar por quem quer que assumisse a postura adulta.


Esse cenário não descreve uma criança bem-educada. Descreve uma criança em risco.


A contravontade existe porque, ao longo da evolução, foi essencial que a criança pequena fosse movida apenas por aqueles a quem está ligada, aqueles que provaram, no quotidiano da relação, que são seus. Essa selectividade não é uma falha do sistema. É o sistema a funcionar exactamente como devia.


Quando aparece, no terreno


Há momentos em que a contravontade fica especialmente visível:


  • A entrada de uma criança nova num grupo, nos primeiros dias.

  • A chegada de uma educadora de substituição, ou a passagem para uma sala nova.

  • O regresso de fim de semana, ou de férias longas.

  • A presença de um adulto pouco conhecido, uma tia que vem ao aniversário, um amigo dos pais que pernoita em casa.

  • A interrupção brusca da brincadeira por um adulto que ainda não estabeleceu contacto.


Nestes momentos, vemos crianças que pareciam "já a fazer x" deixar de fazer x. Crianças que cooperavam resistir. Rotinas consolidadas desfazerem-se. E é tentador interpretar isto como retrocesso, como se a criança tivesse "voltado para trás".


Para aprofundar a base de apego que torna possível tudo o que parece estar a regredir nestes momentos, recomendamos a leitura de A Fundação da Maturidade aqui no nosso blog.


Mas não há aqui retrocesso nenhum. Há um instinto antigo a recusar a orientação de um adulto que ainda não foi acolhido como seu.


Mesmo com quem é seu


Até aqui falámos da contravontade que se acende com adultos novos. Mas há outra face do mesmo instinto: a contravontade que aparece com a mãe, com o pai, com a educadora que conhece a criança há anos. Por vezes com mais intensidade do que com estranho, precisamente porque os adultos mais próximos são também os que mais despertam o sistema de defesa.


Não é contradição. É a mesma lógica a operar noutra camada. A ligação pode estar construída e estar, naquele momento, desactivada. Um dia em que se chegou tarde, um pequeno atrito quotidiano, um pedido feito enquanto se atende o telemóvel,  e o sistema da criança regista, durante esses minutos, que o adulto não está totalmente lá. O instinto responde como sempre responde: resiste.


Quando isto acontece na vida em família, o passo mais útil é o adulto assumir a sua parte. Não temos sempre o tempo nem a disponibilidade para dar os passos certos antes de pedi,  é da natureza da vida em casa. Mas a pergunta que faz a diferença não é “porque é que ela está assim?”. É “onde estive eu, neste momento, e como volto?”.


Há ainda dinâmicas mais profundas, em que a contravontade se torna uma resposta quase permanente, quando a criança nunca chegou a sentir a ligação como verdadeiramente segura, e acaba por assumir ela própria a direcção. Esta é a dinâmica alfa, sobre a qual escrevemos num nosso post anterior. Aí, a contravontade já não é momentânea; é estrutural, e precisa de um caminho próprio.


A armadilha da firmeza

A reacção mais comum é insistir. Repetir o pedido com mais autoridade. Aumentar o tom. Retirar privilégios. Sentar a criança a pensar. Recorrer a estratégias de modificação comportamental que prometem resultado.


E há um padrão que vimos repetir-se em sala após sala: quanto mais firmeza se coloca, mais a contravontade se intensifica. Não porque a criança seja "particularmente difícil". Porque o instinto está construído precisamente para resistir a pressão que vem de quem ainda não está integrado no apego. A pressão confirma a estranheza. A pressão activa o sistema imunitário.


O pedido nunca foi o problema. O problema foi o pedido feito antes da relação.


O que a pedagogia Pikler e Waldorf sempre souberam


Esta é uma das convergências mais bonitas entre Neufeld e as tradições pedagógicas que nos formaram.


A insistência da pedagogia Pikler na continuidade dos cuidadores nunca foi uma preferência estética nem uma boa prática logística. É a infraestrutura que permite que cada gesto de orientação aconteça dentro de uma relação já consolidada. É por isso que o mesmo adulto cuida do mesmo grupo de bebés. Que a substituição é planeada com tempo. Que o cuidado quotidiano: o banho, a refeição, a muda da fralda, é o lugar privilegiado da relação, não a interrupção dela.


A pedagogia Waldorf chega ao mesmo princípio por outro caminho. O ritmo previsível, a presença consistente do mesmo adulto ao longo dos primeiros anos, a entrada lenta no grupo, o cuidado de apresentar antes de pedir. Tudo isto é, lido à luz de Neufeld, infraestrutura de acolhimento, condições que permitem ao apego construir-se antes da direcção ser tentada.


O que significa acolher antes

de orientar


Acolher não é uma técnica. É uma sequência. E traduz-se em gestos concretos:

  • Procurar o olhar antes de pedir. Esperar que a criança nos veja, nos reconheça, antes de qualquer instrução.

  • Nomear o que está a acontecer. "Estavas a brincar com isto." "Estavas tão concentrada." A criança sente-se vista antes de sentir-se dirigida.

  • Convidar a ligação antes do pedido. Uma pequena conversa, um gesto de proximidade, uma referência partilhada, pequenos sinais de que somos seus antes de querermos que ela seja nossa.

  • Não apressar. O acolhimento tem o seu tempo. Tentar acelerar o processo activa precisamente o instinto que se queria desactivar.


Há crianças com mais sensibilidade à entrada de adultos novos, algumas a quem chamamos tímidas, observadoras, mais cautelosas. Para estas, o tempo de acolhimento é mais longo. E é importante que assim seja. O sistema delas está apenas a fazer aquilo para que foi desenhado: proteger a ligação até estar suficientemente construída.


Sobre esta sensibilidade específica, sugerimos também a leitura de Entender e Valorizar a Timidez Infantil aqui no nosso blog.


A pergunta que muda o trabalho


Quando uma criança resiste, a pergunta mais útil não é "como é que faço com que ela faça?". É "o que ainda falta acontecer entre nós para que isto possa ser pedido?".


Essa mudança de pergunta muda tudo. Tira-nos da posição de quem confronta um instinto, e coloca-nos na posição de quem o respeita. Não é mais lento. É, na verdade, infinitamente mais rápido. Porque o que se constrói através do acolhimento permanece. O que se obtém pela pressão dura apenas enquanto a pressão dura.


E há um alívio que vem com este reenquadramento. Aquilo que parecia ser um problema disciplinar quotidiano deixa de ser um problema. Passa a ser informação. Esta criança ainda não me acolheu. O que posso fazer para que isso aconteça?


A resposta não está na firmeza. Está na ligação.


·  ·  ·

Bibliografia

Neufeld, G. & Maté, G. (2021). O Seu Filho Precisa de Si. Ideias de Ler.

Sanches, L. Educar Com Culpa.

Sanches, L. Como Educar Crianças Desafiantes?


A noção de contravontade (counterwill) foi originalmente desenvolvida por Otto Rank (1884–1939) e retomada por Gordon Neufeld no quadro da sua teoria do apego.

Comentários


bottom of page