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A Dinâmica alfa: Quando a Criança Carrega o que Não É Dela

O que vemos e o que está por baixo


Há uma cena que muitos de nós reconhecem. A criança que não aceita que as coisas corram de modo diferente do que imaginou. Que corrige o adulto. Que não larga um plano quando ele muda. Que parece precisar de ter razão.

A leitura habitual é esta: tem muita personalidade. Tem mau feito.É teimosa. Precisa de aprender a ceder.

Gordon Neufeld propõe outra leitura. E esta muda tudo.

Essa criança não está a exercer poder. Está a gerir um sistema nervoso que se activou para uma função que não lhe pertence.


O instinto que nos organiza

Neufeld descreve o instinto alfa como uma das forças mais antigas e profundas do desenvolvimento humano. As crianças têm um impulso biológico de se orientarem em relação a alguém maior, mais firme, mais sábio. Não é uma preferência. Não é um traço de personalidade. É uma necessidade de sobrevivência inscrita na arquitectura do sistema nervoso, tão fundamental como a necessidade de dormir ou comer.

Quando esse adulto está presente, quando a criança o sente como ponto de referência sólido, como presença que não se move, algo no seu interior descansa. Pode explorar, pode errar, pode não saber, porque há alguém que segura o espaço.


O vazio que a criança preenche

O problema surge quando esse adulto não ocupa esse lugar com clareza.

Não estamos a falar de negligência. Estamos a falar,  muito mais frequentemente, de adultos bem-intencionados que recuaram. Que negoceiam tudo. Que precisam da aprovação da criança para avançar. Que têm receio de frustrar, de contrariar, de ser rejeitados. Que confundem respeito com ausência de orientação.

Quando o adulto hesita, o sistema nervoso da criança detecta o vazio. E, por imperativo de sobrevivência, preenche-o. Não porque a criança o decide, mas porque o instinto de orientação não desaparece quando o adulto recua. Apenas encontra outro caminho.

O que vemos na superfície, a criança que tudo orienta, que não aceita um não, que parece querer gerir o adulto, é o retrato de uma criança a fazer um trabalho que não é dela. E esse trabalho esgota-a.


O alívio que o adulto pode trazer

O que acontece quando o adulto ocupa o seu lugar com calma e clareza?

A criança descansa.

Não de imediato, necessariamente,  o sistema nervoso precisa de tempo para confiar. Mas quando confia, algo liberta-se. A criança pode voltar a ser criança. Pode soltar o controlo porque há alguém que segura. Pode errar porque há alguém que não se perde quando ela se perde.

Neufeld é claro neste ponto: o bom comportamento: a cooperação genuína, a flexibilidade, a capacidade de ceder,  não nasce da disciplina. Nasce do alívio. É a consequência natural de uma criança que finalmente pôde descansar no lugar certo.


O que alfa não é

Existe uma confusão que importa desfazer.

Ocupar o lugar alfa não é ser autoritário. Não é usar o medo como instrumento. Não é exigir obediência. Não é ser frio ou inacessível.

É presença quente com clareza. É o adulto que orienta sem pressionar. Que segura sem controlar. Que mantém o rumo sem perder a ternura. Que pode dizer não e diz-o de uma forma que a criança sente como protecção, não como rejeição.

Pikler também nos mostrou isto com rara elegância: o cuidado mais respeitoso não é o que cede a tudo, é o que está genuinamente presente. O adulto que cuida com atenção total, que anuncia o que vai fazer, que espera, que escuta, esse adulto não é permissivo nem autoritário. É presença.


O trabalho que isto pede ao adulto

Ocupar este lugar com genuinidade não é um gesto técnico. É um trabalho interior.

Implica que o adulto tenha uma relação com a sua própria autoridade, não a autoridade herdada do medo, mas a que nasce da presença. Que consiga estar num momento difícil sem precisar de o resolver depressa. Que tolere a frustração da criança sem entrar em pânico ou em culpa. Que não precise de ser aprovado para tomar uma decisão.

MacFarlane nomeou-o com clareza na conferência de Goetheanum: a vida interior do educador não é um benefício pessoal. É o instrumento pedagógico central. A criança não imita o que dizemos, imita como estamos, quem somos. Como respondemos ao erro, ao conflito, à incerteza.

O adulto alfa não é o que nunca erra. É o que não se perde quando as coisas ficam difíceis.


Uma última nota

Este conceito não é uma receita para corrigir comportamentos. É uma forma de compreender o que está por baixo deles.

Quando vemos uma criança que tudo quer orientar, a pergunta que Neufeld nos convida a fazer não é: como a faço parar? É: o que é que ela está a tentar segurar? E o que posso eu fazer para que não seja ela a segurar?

O instinto alfa é um apelo. Não à submissão da criança,  ao crescimento do adulto.


  • Neufeld, G. & Maté, G. (2021). O Seu Filho Precisa de Si. Tradução de Maria do Carmo Figueira. Ideias de Ler.

  • Sanches, L. Educar Com Culpa e Como Educar Crianças Desafiantes?, Manuscrito Editora

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