Como Amadurecem as Nossas Crianças? A Teoria da Maturação de Neufeld
- Educa.São & Laura Sanches

- há 21 horas
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A Pergunta Que Todos Fazemos
“Estará pronta para ir para a escola?”
Esta é a pergunta que mais ouvimos. De mães, de pais, de educadoras, de avós. Dita de mil formas diferentes, mas sempre com a mesma inquietação: será que é cedo de mais? Será que está preparada? Será que estou a tomar a decisão certa?
Há quem a faça em voz alta. Há quem a faça em silêncio, a meio da noite, quando o mundo pesa mais. E há quem nos escreva com as palavras exactas: “a minha filha faz 3 anos em julho e eu não sei se está pronta para ir para o Jardim de Infância.”
Nós conhecemos esta angústia. Não só porque a ouvimos todos os dias, mas porque a vivemos também. E o que temos aprendido — com a prática, com a teoria, com o que ouvimos do Gordon Neufeld — é que talvez a pergunta esteja ao contrário.
Não é “estará ela pronta para a escola?”
É: “Estará a escola pronta para ela?”
É: “O que é que ela precisa para poder amadurecer, e esse lugar vai dar-lhe isso?”
O Que É a Maturação (e O Que Não É)
Nós usamos a palavra “amadurecer” como se fosse sinónimo de “comportar-se bem.” De “saber esperar.” De “saber partilhar.” Como se houvesse uma lista de competências que a criança vai adquirindo, e quanto mais depressa as adquirir, melhor.
Gordon Neufeld, psicólogo do desenvolvimento, canadiano, com mais de 40 anos dedicados a esta questão, vira tudo isto ao contrário.
Para Neufeld, a maturação não é socialização. Não é aprender regras. Não é adaptar-se ao grupo. A maturação é o desdobrar do potencial humano, algo que acontece de dentro para fora, como um processo biológico e emocional, não cognitivo.
Pensem numa semente. Nós não puxamos a planta para que cresça. Não lhe ensinamos a dar raízes. Não lhe exigimos flores antes de tempo. Damos-lhe terra, água e luz, e a natureza faz o resto.
Com as crianças é exactamente o mesmo. A maturação não se ensina. Não se treina. Não se acelera. Acontece, quando as condições certas estão presentes.
E quando não estão presentes? O desenvolvimento fica em espera. A criança pode parecer que funciona: obedece, cumpre, adapta-se — mas por dentro, o processo de amadurecimento está parado. Ou pior: está a ser activamente impedido.
As 3 Condições Para o Amadurecimento
Neufeld identifica três condições essenciais para que a maturação aconteça. Não são técnicas, não são estratégias. São condições, como a terra, a água e a luz para a semente.
1. Apego
Não estamos a falar de trauma. Não estamos a falar de diagnósticos nem de categorias clínicas. Estamos a falar de relação. Pura e simplesmente.
A criança precisa de sentir, no corpo e não apenas na cabeça, que pertence. Que é cuidada. Que há alguém que não vai embora. Neufeld descreve isto como a necessidade mais fundamental da criança, mais fundamental do que aprender, do que socializar, do que qualquer competência que possamos querer que desenvolva.
Quando o apego está presente, o cérebro relaxa. A criança sai do modo de alerta e entra num espaço onde o crescimento se torna possível.
Bridging: manter a ligação na separação
Aqui entra um dos conceitos mais práticos e bonitos de Neufeld: bridging — construir pontes.
Quando a criança sai de casa, o que a segura não é a mochila nem a rotina. É sentir que continua ligada a nós mesmo quando não nos vê. Um “até logo, o coração da mãe vai contigo.” Um objecto que cheire a casa. Uma fotografia no bolso. Uma frase repetida que diz “eu volto sempre.”
Neufeld chama-lhe keeping together while being apart. Manter-se juntos mesmo estando separados. É o que permite que o cérebro da criança saia do modo de alerta e descanse, mesmo longe de nós.
Para quem trabalha com crianças pequenas, isto é fundamental. Não basta recebê-las de manhã. É preciso ajudá-las a sentir que a ligação com quem as cuida não se rompeu por estarem num lugar diferente.
2. Lágrimas de Futilidade
A segunda condição parece contra-intuitiva: para amadurecer, a criança precisa de chorar.
Não de chorar por capricho. Nem por manipulação (que é um dos maiores mitos sobre as crianças pequenas). Mas de chorar quando encontra algo que não pode mudar. Uma perda. Um não. Um limite.
Neufeld chama-lhes lágrimas de futilidade: o momento em que o cérebro reconhece que algo é como é, e se adapta. Só acontece quando a criança se sente suficientemente cuidada para sentir a dor, em vez de a bloquear.
O que acontece quando bloqueamos essas lágrimas? A frustração não desaparece. Muda de lugar. Desloca-se. Pode transformar-se em raiva, em agitação, em impulsividade, em comportamentos que depois não percebemos de onde vêm.
Eva de Gosztonyi, que esteve connosco em Praga, falou disto com uma clareza enorme: não perguntes “porquê?”, não minimizes. Senta-te em silêncio com compaixão. Confia que a criança vai recuperar. Dá espaço à tristeza e às lágrimas.
Porque as lágrimas não são o problema. São a solução.
3. Brincadeira Emergente
Quando há apego e espaço para sentir, algo maravilhoso acontece: a criança brinca.
Não porque alguém lhe disse para brincar. Não porque há uma atividade programada. Mas porque precisa. Porque é assim que o cérebro processa o mundo.
No brincar, a criança experimenta papéis. Resolve conflitos internos. Ensaia a pessoa que está a tornar-se. O brincar é o laboratório do amadurecimento.
Na pedagogia Waldorf, o brincar livre é o centro de tudo. Não é uma pausa entre atividades. É A atividade. Neufeld explica porquê: só brinca quem se sente seguro e leve. O brincar é o sinal de que as condições para o amadurecimento estão presentes.
REST: Quando o Cérebro Deixa de Sobreviver e Começa a Crescer
Quando as três condições estão presentes, a criança entra no que Neufeld chama REST.
Não é descanso físico. É um estado em que o sistema nervoso sai do modo de alerta e entra no modo de crescimento. Neufeld descreve-o como a realização espontânea do potencial.
Quando a criança está em REST/DESCANSO, aquilo que chamamos “resultados” emerge naturalmente: curiosidade, criatividade, resiliência, empatia, capacidade de aprender, de se individualizar. Não porque alguém ensinou. Porque a natureza fez o seu trabalho.
A nossa cultura foca-se no oposto: ensinar, treinar, avaliar. Queremos resultados visíveis. E pela pressão de os ver, tiramos à criança exactamente aquilo de que precisa para os alcançar.
Neufeld disse-o com clareza em Praga: o foco prematuro no autocontrolo tem o efeito contrário. A criança pode obedecer, pode cumprir, mas a custo da sua expressão emocional e da consciência de si mesma.
O Que Sentimos Nós, Como Pais
É normal sentir coisas opostas ao mesmo tempo. Querer que cresça e querer que fique. Saber que um passo novo é bom e sentir que nos parte o coração.
Neufeld chama-lhe mixed feelings — sentimentos ambivalentes. E diz algo importante: sentir as duas coisas ao mesmo tempo não é confusão. É maturidade. É a capacidade de viver com a complexidade sem precisar de a resolver.
Não temos de escolher entre as duas emoções. Podemos sentí-las as duas. E as nossas crianças também, quando lhes damos espaço para isso.
O Que Podemos Fazer
Garantir que a criança se sente cuidada antes de lhe pedir o que quer que seja.
Permitir as lágrimas, estar presente sem tentar consertar.
Proteger o brincar livre como se fosse sagrado, porque é.
Construir pontes na separação, pequenos rituais que dizem “eu continuo aqui.”
Não ter medo de chamar amor ao que é amor.
A maturação não se puxa. Dá-se-lhe terra, água e luz. Relação, presença e tempo.
EducaSão • Laura Sanches • 2026




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