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Ritos de Passagem - Os meninos do Sol

Atualizado: 28 de set. de 2021

Estamos a chegar ao final do ano lectivo, e como tal, em todas as escolas do país, crianças, pais e educadores vivem com ansiedade e entusiasmo esta época. As crianças que terminam um ciclo de escolaridade preparam-se para o novo desafio das suas vidas, como celebrar este rito de passagem?

Na maioria das escolas encontram-se formas várias de celebrar este final de etapa, mas como podemos tornar significativa a saída do jardim de infância? Gostavam de saber como o fazemos nas escolas Waldorf?


Nas escolas Waldorf, a transição de uma criança do jardim de infância para a primária, é vista com muita atenção, cuidado e entusiasmo. A sua preparação vai sendo feita ao longo de todo o ano letivo sempre com um olhar muito atento pela parte dos adultos cuidadores, pais e educador.


E, como todos os bons marcos da nossa vida, culmina numa bonita e calorosa celebração, partilhamos convosco a nossa celebração, a despedida dos Meninos do Sol.


A simplicidade e autenticidade da festa, ajuda a fortalecer a individualidade, o amor próprio e o coletivo. As crianças ficarão para sempre ligadas por esse fio de ouro que as une na relação, e as vivências que partilham com o coração e com a presença.


A estas grandiosas crianças chamamos, Os Meninos do Sol! São os meninos e meninas que no próximo ano letivo irão iniciar uma nova fase das suas vidas, que irão para a primária.


Depois de um longo ano, e já depois da festa de São João e do sol quente do verão chegar, temos o nosso acantonamento na escola.

Quem nunca sonhou passar uma noite na escola, vivenciar a noite ao redor de uma fogueira, cantar músicas, contar histórias, pedir desejos, agradecer.… andar de lanterna em punho e dormir num saco de cama?


Pois é isso mesmo que acontece. No fim de semana anterior à festa de despedida fortalecemos esses laços de amizade, amor e segurança entre estes meninos, é uma vivência que lhes fica marcada para a vida, muitos deles nunca dormiram fora de casa, é o seu primeiro corte noturno com os pais, é um grande ato de coragem e força.


No dia seguinte acordamos bem cedo com os nossos corações a transbordar de entusiasmo e vitória! Conseguimos!


Comemos um magnifico pequeno almoço preparado por todos e, aos poucos e poucos, os pais, muitas vezes ansiosos, vão chegando, e assim terminamos o início do dia com muitas gargalhadas, muitos abraços, muitas conquistas.


Na semana seguinte, o entusiasmo dos Meninos do Sol, permanece, contam e recontam todas as suas aventuras noturnas, riem com tudo o que passaram juntos e falam nos seus receios e alegrias para o próximo ano letivo.


Chega o dia da Festa de despedida dos meninos do sol.

Tudo é preparado ao pormenor. Os pais estão encarregues de fazer as coroas e as capas dos seus filhos, será o seu presente para esta transição. E a roupa toda branca, para que possam brilhar com toda a pureza.


Duendes/ Anõezinhos da nossa escola, preparam um pequeno tesouro, com lindos presentes lá dentro, um mini franco com a gota do céu (óleo de alfazema, que todos os dias colocam nas mãos), um anjo de lã e um cristal, e um postal com algumas palavras sobre cada criança.


No dia, uma linda mesa redonda é colocada no centro da sala, com uma toalha branca, e no centro uma seda arco-íris cuidadosamente colocada, os tesouros, uma vela no centro e outra para cada um dos Meninos do Sol acenderem.


Entramos cuidadosamente, e ao som da música do metalofone pentatónico ou flauta, cada menino do sol entra e senta-se na sua cadeira.


Nessa altura conta-se a história preparada, sobre a chegada de cada uma das crianças à escola, o seu encontro com todos nós e as virtudes que trazem para a dinâmica do grupo.


Os Meninos do Sol, ao longo da história e quando falamos individualmente de cada um, são coroados, colocam-se as capas e acendem-se as velas, uma a uma com toda a solenidade que o

momento transmite e o orgulho que cada uma delas trás no coração.


Os tesouros são entregues a cada um e todos nós abraçamos, ao som de uma linda música, cada Menino do Sol, desejando-lhes a todos as coisas boas do mundo. Depois seguimos para um lanche especial preparado no jardim, muita brincadeira e lagrimas à mistura.


Assim é a nossa festa de despedida, simples, cheia de luz, calor, significado e muita saudade à mistura.


Nesse dia também levam para casa, a capa com os seus trabalhos, o resultado final do seu trabalho do tear e a história que foi docemente contada.


Mas nem todas as festas são iguais, e nas Escolas Waldorf, onde existe uma continuidade para o primeiro ciclo existe o chamado Festival da Ponte, que também é uma linda cerimónia.


Os pais, avós e amigos estão sentados num grande círculo, e todos olham com sorrisos e lágrimas.

No centro do círculo estão todas as crianças e cuidadores do jardim de infância. Do outro lado está o novo professor do primeiro ciclo. As crianças cantam e depois ouvem a história. Uma história que conta a história de um filho mais velho, um príncipe, que se pergunta o que há do lado de fora das paredes do palácio (o jardim de infância) .


O sábio rei e a rainha entregam-lhe objetos importantes para a sua jornada, e dizem-lhe que irão enviar um guia, que o espera do lado de fora do portão para liderar o caminho para o mundo.


Então, uma a uma, cada criança que está pronta para o primeiro ciclo é chamada pelo nome, levanta-se, despede-se dos seus cuidadores e amigos, e atravessa a ponte para ser recebida pelo novo professor. Os novos alunos do primeiro ano são conduzidos por um curto período a sós com seu novo professor.


Estas são algumas das formas de se festejar o fim do jardim de infância. É um rito de passagem de uma fase de desenvolvimento para a seguinte. Pela qual todas as crianças anseiam e desejam.

Significa a transição de uma espécie de Jardim do Éden para uma exploração do mundo ao redor, ou seja, a transição de uma experiência de alma em grupo para um indivíduo mais auto-

consciente.


Este modo de festejar, mais simples, mas profundo, dá uma resposta mais adequada à necessidade das crianças nesta faixa etária, os rituais que celebram a transição entre as fases de desenvolvimento, a nosso ver, não são bem entendidos, hoje em dia, na nossa cultura moderna. Temos de ter a consciência que cada etapa tem de ter o seu ritual próprio e adaptado ao pensar presente da criança, e que não deverá ser uma cópia minimal de ritos de passagem futuros.



HISTÓRIA DA PONTE


Era uma vez um rei e uma rainha que viviam num lindo reino com todos os seus filhos. O grande palácio onde moravam era cercado pelo jardim mais lindo que já viste. Era tão grande que havia espaço suficiente para todos os filhos dos reis brincarem juntos e felizes. Havia árvores, arbustos e até um lago com cisnes e patos. Em torno deste jardim, no entanto, havia um muro alto de pedra, alto demais para qualquer uma das crianças olhar. Mas elas não se importaram, pois havia muito o que fazer no jardim.


No meio do jardim crescia a maior árvore do jardim; um carvalho. Este carvalho era tão alto que os ramos mais baixos ainda eram muito altos para os filhos do rei tocarem. Mas todos os dias os mais velhos iam ver se já eram grandes o suficiente. Eles pulavam, mas não, eles ainda eram muito pequenos. Um dia o príncipe mais velho conseguiu tocar um dos ramos com a ponta dos dedos. Ele ficou tão contente que correu para contar a todos os seus irmãos e irmãs. Desde aquele dia ele tentou todos os dias. E sete semanas depois, ele foi finalmente capaz de tocar os ramos com as palmas das mãos.


Ele voltava à árvore todos os dias para ver se já era alto o suficiente para se levantar e subir a árvore. Depois de outras sete longas semanas, chegou o dia em que esse príncipe conseguiu se levantar e chegar ao primeiro ramo. Que alegria isso foi para os seus irmãos e irmãs, que estavam todos reunidos sob a árvore, para o rei e a rainha que olhavam por uma das janelas do palácio, mas acima de tudo para o próprio príncipe.


A principio, ele sentiu-se um pouco vacilante, por ser tão alto, mas logo recuperou o equilíbrio e começou a olhar em volta. Que alegria! Ele podia ver o relvado e todos os seus irmãos e irmãs que brincavam e olhavam para ele. E então ele pensou "vamos ver se eu consigo subir até ao segundo ramo". Ele levantou-se, ergueu-se até ao segundo ramo e, novamente teve que encontrar o equilíbrio. Quando o fez, ele olhou o jardim e viu o lago com belos cisnes nadando nele. E ele gostou muito dessa vista. Então ele quis ver mais e subiu até o terceiro ramo. Desta vez, ele podia ver o cozinheiro dentro do palácio a preparar o jantar nas cozinhas do palácio, com todos os seus ajudantes circulando ao seu redor. O quarto ramo, entretanto, permitiu-lhe ver o grande céu azul. Neste dia em particular, o sol brilhava tão forte que o príncipe olhou para os seus raios e percebeu como eles faziam tudo cintilar e brilhar. E foi então que ele percebeu outra coisa; ele estava alto o suficiente para olhar por cima do muro do palácio, para um novo mundo. Ele estava tão animado e não se cansava de olhar tudo à sua volta. De repente, ele viu outro palácio, e que belo lugar!

Ele conseguia até olhar lá para dentro. Lá dentro viu um(a) rei/rainha que caminhava em direção a uma bela sala com um trono, ele (a) preparava a sala, movendo e acrescentando coisas.


Ver este(a) rei/rainha fez com que o príncipe desejasse ir até lá e o mais rápido que pudesse, ele então desceu. Uma vez no jardim, ele correu para o alto muro de pedra e caminhou ao longo do muro em busca de uma porta. Para sua grande decepção, ele não conseguiu encontrar uma porta. A partir desse dia, o príncipe subia à árvore todos os dias para olhar para aquele belo palácio para ver se ele poderia ver o(a) rei/rainha novamente. Cada dia ele queria ver mais; ele ansiava por estar lá.


Enquanto isso, havia mais príncipes e princesas que tentavam todos os dias ver se eram grandes o suficiente para subir ao carvalho. E chegou o dia em que havia três (número de crianças que saem para a primária) crianças na árvore. Todos escalaram o ramo e experimentaram a beleza ao seu redor; primeiro elas viram os seus irmãos e irmãs no jardim, depois viram os cisnes no lago e, subindo no terceiro ramo, viram o cozinheiro na cozinha. A alegria de ver o céu com o lindo sol era indescritível. Todos os quatro se encontravam naquela árvore todos os dias. Eles adoravam olhar para o outro palácio em busca do(a) Rei/rainha e todos eles queriam ir até lá.


Certa manhã, quando os quatro estavam no alto da árvore, ouviram alguém a chamá-los para baixo. E tão rápidos quanto esquilos, eles desceram para encontrar o Rei e a Rainha na base da árvore. Com eles estavam dois criados. Um carregava uma almofada vermelha com uma chave dourada e o outro carregava uma bandeja dourada com quatro caixas de tesouro com um sol dourado pintado na tampa. As crianças olharam para o rei em expectativa, esperando o que estava para vir. Quando todos chegaram ao chão, o Rei disse: “Meus queridos filhos, chegou a hora de vocês irem para a palavra ampla, mas antes de irem quero dar-lhes algo”. Após essas palavras, ele pegou na primeira caixa e deu-a a um deles com as seguintes palavras:


”Que o tesouro do sol brilhante


Te dê força, luz e amor


E vivas esta aventura confiante


Lembrando-te sempre da tua luz, do teu valor ”.


Depois entregou a segunda caixa e a terceira, até que deu a todos um tesouro. Depois disso, ele pediu a todos que o seguissem. Eles seguiram-no até ao muro e o rei esperou um momento até que todos estivessem lá. Então ele empurrou alguns ramos da roseira e lá estava a porta!


O rei tirou a chave da almofada e abriu a porta com ela. Quando a porta se abriu, os seus olhos encontraram um rosto familiar; do outro lado estava o(a) Rei/Rainha que eles tinham visto no seu palácio da sua árvore. Com um grande sorriso no rosto, as crianças passaram pela porta, acenaram para os seus irmãos e irmãs e para o rei e a rainha. Eles pegaram na mão do(a) outro(a) rei/rainha e seguiram um novo caminho.

As crianças que ficaram no jardim olharam para eles por muito tempo, até que quase não os conseguiam vê-los. Então o rei trancou a porta novamente. Estavam todos um pouco tristes em se despedir dos seus irmãos, mas sabiam que se encontrariam novamente.



OUTRA VERSÃO



A cerimónia principal começa com a narração de uma história sobre um grupo de crianças que encontram uma bela ponte.

As crianças desejam passar para o outro lado, mas não conseguem ver o caminho até que encontrem uma velha sábia que os avisa que devem fazer algumas coisas especiais para continuar.

Ela encoraja-as a encontrar um pedaço de pau para talhar e esculpir numa espada. Ela então diz às crianças para encontrarem outro ramo para pendurar um tecido rico e colorido e, finalmente, ela fá-las pegar numa liana e com ela entrançar uma corda para fazer uma corda de saltar. Quando as crianças têm todas as três coisas prontas, o caminho para atravessar a ponte aparece e a mulher sábia diz:

- Agora que vocês estão prontos. As vosssas espadas servirão para proteção e para terem coragem, para ajudá-los a lutar contra os dragões. A vossa tecelagem vos lembrarás da beleza do arco-íris e da paciência necessária para o prosseguir. E, finalmente, a vossa corda de saltar manterá os vossos pés e mãos ágeis enquanto vocês continuam a vossa jornada.

Depois disso, cada criança, com o seu manto dourado, é levada uma a uma para cruzar a ponte, mas não antes de ouvir um rima simples.

"Poderoso o sol

Acima da tua cabeça

Amplo o mundo nas tuas mãos

Amor puro como ouro, claro como cristal,

pelos teus irmãos.

Firme como o chão sob os teus pés

Heis quem: TU ÉS!."


Aqui o educador entrega a espada, o trabalho do tear e a corda de saltar.




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