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Desvendar Gatilhos Emocionais: O Caminho para uma Parentalidade Consciente e Compassiva

Atualizado: 8 de jan.


Quantas vezes já deste por ti a dizer... “se ela apenas ouvisse à primeira, eu não tinha de gritar!” ou “Se ele parasse de bater na irmã, eu não tinha de me irritar!”?


Ou então, talvez estes pensamentos te sejam familiares:

- “As birras assustam-me, fico fora de mim”;

- “Se isto é tão difícil aos 2 anos, quanto pior será aos 12?!”;

- “Estou tão sobrecarregado(a)/cansado(a)/stressado(a)... que as necessidades dele(a) são demais para mim, agora”, frequentemente acompanhado de: “Porque é que me estás a fazer a vida tão difícil?”.


Ou quando as coisas fogem totalmente de controlo: “Estarei a transformar-me no meu pai, na minha mãe?” e/ou “Sou um(a) pai/mãe horrível!”


E a situação clássica, em que estás a dizer/perguntar algo ao teu companheiro(a), amigo, colega, e o teu filho interrompe antes que alguém tenha oportunidade de responder, ou dizer algo. E tu, instantaneamente, argumentas que não estavas a falar com ele e para ele fazer o favor de não interromper, num cenário otimista. Não houve sequer um momento para respirar, tentar ver a perspetiva dele e responder de maneira calma e empática; reagiste instantaneamente! E a seguir, sentes-te triste e culpado(a), pois percebeste que a tua resposta foi totalmente fora de proporção.


Sempre que isto acontece, e nos sentimos afetados, é porque estas situações despoletam algo dentro de nós. Queremos acreditar que não somos pais controladores e autoritários, mas então vemo-nos em situações, como as acima descritas, e tudo é questionado em nós: de onde vieram essas vozes? Nós "sabemos melhor", nós lemos os livros, vimos os vídeos, temos formação, etc.


A verdade é que não há quantidade de ‘técnicas’ de parentalidade pacífica que nos possam ajudar, não há um guião a seguir. O que aconteceu foi que um sentimento foi desencadeado dentro de nós e passamos instantaneamente a agir por impulso, de forma a tentar "desligar" esse sentimento porque este é-nos muito desconfortável.


Apostamos que sabes quais são esses momentos, e como eles te fazem sentir. Nós, sem dúvida, os reconhecemos.


Podemos ter todas as boas intenções do mundo, mas do nada surge aquela reação, de uma forma totalmente impensada. Já te perguntaste porquê?




Um gatilho, de acordo com a psicóloga, especialista em pais e autora Dra. Laura Markham, é “qualquer coisa que experiencias no momento presente que ativa um sentimento do passado”. Os gatilhos são perigosos porque podem provocar um sentimento que, por sua vez, nos leva a reagir de uma maneira que não está de acordo com o presente.


A verdade é que todos nós somos desencadeados, cada um à sua maneira, todos temos gatilhos. Quer os reconheçamos ou não. E são os nossos filhos que mais facilmente nos levam de volta ao nosso passado, à nossa infância, apesar de muitas vezes também ser comum acontecer com os parceiros. As experiências que tivemos durante a infância ainda vivem connosco, e se nunca tivemos a oportunidade de trabalhar emocionalmente essas experiências, podem ter a certeza, que a partir do momento em que somos pais, estas oportunidades vão ser constantes. O mais triste é que uma grande parte de nós nunca aproveitará essas oportunidades.


Se escolhemos ser uma figura parental respeitosa, então porque continuamos a nos ver em situações que nos fazem sentir irritados(as) ou frustrados(as)?


Como dissemos, não importa o quanto praticamos, o quanto lemos sobre o assunto, ou quantas técnicas parentais temos "na manga", o que isto nos indica é que temos provavelmente algum trabalho interno a fazer, se continuamos a nos encontrar nestas situações.


Como podemos querer entender os nossos filhos, ser compassivos e ter um relacionamento respeitoso com eles quando não conseguimos fazer o mesmo connosco mesmos? Precisamos entender o nosso passado, visitá-lo e revivê-lo. Encontrar os nossos gatilhos e mostrar a nós mesmos compaixão e empatia, pela criança que fomos.


Se nunca o fizermos, os nossos filhos continuarão a tentar ensinar-nos as mesmas lições repetidamente, até que o façamos. Podemos sempre optar por não fazê-lo, é claro, como muitos de nós o faz. Podemos ignorar a nossa criança interior e, em vez disso, adotar técnicas parentais convencionais. Podemos lidar com qualquer situação negativa ou difícil com controlo e força para que nunca precisemos olhar para dentro de nós mesmos. Podemos nos convencer de que isso é o melhor para as crianças, que as estamos ensinar a serem "bem educadas" e socialmente aceites, certo? Todos sabemos que as crianças precisam do nosso controlo, de saber "quem é que manda" e de serem disciplinadas?! (ironia)




Ou então podemos seguir o outro caminho, reconhecer a imensa oportunidade que os nossos filhos nos apresentam de nos entendermos, crescermos e curarmos a nossa criança interior. Podemos fazer o verdadeiro trabalho da parentalidade que é sermos capazes de nos transformar no nosso melhor eu.


Quando nos comprometemos a buscar a resposta dentro de nós mesmos, percebemos que os momentos de conflito não são algo para "passar por cima". São oportunidades de crescimento.


Em vez de nos apoiarmos no poder e controlo, devemos procurar a conexão e a compreensão (com os nossos filhos e connosco mesmos).


Em vez de reagir aos nossos filhos, podemos examinar criticamente por que reagimos da forma que reagimos, de forma a chegarmos à raiz do problema e fazermos

mudanças permanentes e duradouras.


Os nossos filhos vêm até nós para que possamos reconhecer as nossas feridas psíquicas e criar coragem para transcender as limitações que estas feridas nos impõem. À medida que descobrimos as formas pelas quais o nosso passado nos impulsiona, gradualmente tornamo-nos capazes de ser pais conscientes. Até lá, por mais que tentemos conscientizar a maneira como somos pais, a inconsciência infiltra-se e, na menor provocação, nas nossas interações com os nossos filhos.” - Shefali Tsabary


Não é fácil. Pois provavelmente temos muitos gatilhos, e eles nem sempre são fáceis de identificar. Mas merecemos encontrar a liberdade que vem do curar das feridas emocionais do nosso passado. E como fazemos isso? O primeiro passo é sempre identificar os nossos gatilhos.


Simplesmente saber quais as situações em que provavelmente será evocada uma reação intensa de forma que possamos estar mais preparados. Por exemplo, se eu sei que é muito provável que fique frustrado(a) quando estamos com pressa, posso me preparar para isso.


Posso garantir que não deixo as coisas para a última hora, posso comunicar claramente com todos em casa quais são os planos, posso dar um tempo extra, posso deixar coisas preparadas de véspera, etc.


Para nós o que ajudou foi manter uma espécie de diário, onde anotámos todas as vezes que tínhamos uma reação intensa ou desproporcional a uma situação, o que aconteceu no momento e como isso nos fez sentir. Esta foi uma forma de descobrir os nossos gatilhos e uma verdadeira caixa de Pandora.


Depois dos gatilhos descobertos, encontrarmos o porquê destes deve ser o próximo passo:


De onde vêm estes sentimentos?

Ao que estou mesmo a reagir?

Como estou a interpretar o comportamento/sentimentos da criança?

Quando é que me senti assim no passado?


Talvez em criança nos tenhamos sentido impotentes com frequência, que ninguém nos escutava, que a nossa voz não era importante. Ou talvez a situação nos lembre de um incidente específico, em que fomos/sentimo-nos envergonhados(as) por alguma coisa.


Pode ser desconfortável e vulnerável explorar as nossas memórias, afinal, é essa a razão de reagirmos às experiências que trazem esses mesmos sentimentos. Queremos desligá-los para que não tenhamos que revivê-las.


Mas, quando reconhecemos os nossos gatilhos, quando sabemos o que são e de onde vêm, eles perdem o poder sobre nós. Eles não podem mais esconder-se no nosso subconsciente e fazer-nos reagir sem pensar. Passamos a conseguir abordá-los em vez de nos esconder deles.


A verdade é que muitos de nós foi educado no "as crianças são para ser vistas, mas não ouvidas/escutadas", "ninguém te pediu a opinião" e "respeitinhos pelos mais velhos e, o não menos famoso, 'quem é que pensas que és?'".


E assim as nossas emoções foram fechadas e escondidas, e nunca aprendemos a lidar com elas. Mas agora é a nossa oportunidade de mudar isso e, mais ainda, de não perpetuar este ciclo de descontrolo emocional nada saudável.


Não é surpresa que não consigamos sintonizar a essência dos nossos filhos. Como podemos ouvi-los, quando tantos de nós mal se escuta a si mesmo? Como podemos sentir o seu espírito e ouvir a batida do seu coração se não podemos fazer isso na nossa própria vida?

- Shefali Tsabary,


Quando identificamos e reconhecemos os nossos gatilhos, temos de saber que, grande parte das vezes, eles trazem consigo sentimentos como: raiva, tristeza, arrependimento, decepção, vergonha. Mas, em vez de empurrá-los para o lado e desligá-los, como fizemos até agora, temos o poder de nomeá-los, senti-los e revivê-los, para os poder enquadrar e ultrapassar.


Este não é um presente que damos apenas a nós mesmos, mas é o para aos nossos filhos também, e para todas as futuras gerações. As crianças precisam muito que aceitemos os nossos sentimentos, sabemos que é difícil, e que demorará bastante tempo até que nos sintamos confortáveis com nosso próprio estado emocional, mas é um caminho, que depois de iniciado trará com ele a harmonia que tanto buscamos.


A verdade é que a menos que consigamos aceitar os nossos próprios sentimentos, na maioria das vezes, não conseguiremos aceitar os deles. E como queremos assim ensiná-los a aceitar os seus?




Bibliografia:


  • Título: The Conscious Parent: Transforming Ourselves, Empowering Our Children

  • Autor: Shefali Tsabary, PhD

  • Data de Publicação: 2010

  • Editora: Namaste Publishing

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