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Prontos para Quê? O que significa uma criança estar preparada para a separação diária

Há uma prática em algumas escolas Waldorf que raramente se discute fora desses contextos: educadoras que tiram licença sabática após o nascimento de um filho, não apenas o período legal de licença de maternidade, mas o tempo que for necessário até sentirem que a criança está pronta para a separação diária.


Nós próprias só compreendemos a dimensão desta prática quando chegámos aos Países Baixos. Não como teoria, mas como realidade quotidiana de algumas escolas Waldorf que conhecemos aqui. E também, de formas diferentes, em contextos com que nos cruzámos em Madrid.


Quando nos depárámos com isto pela primeira vez, a reacção foi de algo que se parece com alívio. Como se alguém tivesse finalmente dito em voz alta o que muitos sentem mas raramente têm espaço para dizer.


O que estas escolas estão a fazer não é oferecer um privilégio laboral invulgar. Estão a ser coerentes. A reconhecer que aquilo em que acreditam sobre o desenvolvimento da criança pequena tem implicações concretas,  inclusive para quem cuida.


A ironia silenciosa


Há uma contradição que atravessa a vida de muitos profissionais de educação de infância que também são pais e mães de crianças pequenas.


São as pessoas que mais sabem, que mais estudaram, que mais observaram, que mais acompanharam, o que acontece internamente numa criança quando se separa de quem ama todos os dias. E são, muitas vezes, as que mais vivem essa separação: da parte dos filhos que deixam, e da parte das crianças que recebem.


Acalmam choros enquanto guardam os seus. Criam segurança para crianças cujos adultos partiram, enquanto os seus próprios adultos também partiram para algures.


Não dizemos isto para criar culpa. Dizemos isto porque é verdade, e porque raramente se diz.


O que Neufeld nos diz sobre estar pronto


Gordon Neufeld dedicou décadas a estudar as formas como as crianças se ligam às pessoas que amam e o que precisa de existir, por dentro, para que essa ligação se mantenha mesmo na distância física.


Uma das suas frases mais certeiras resume muito: «a criança precisa de conseguir agarrar-se antes de poder separar-se.»


Isto não significa que a separação deva ser evitada a todo o custo. Significa que a separação exige preparação interna. E essa preparação não é uma questão de idade, de rotinas ou de qualidade do contexto, é uma questão de apego suficientemente construído.


Neufeld descreve vários estádios no desenvolvimento do apego. É quando a criança atinge os estádios mais profundos. aqueles em que começa a sentir-se amada e a interiorizar essa experiência, que algo fundamental muda. A ligação deixa de depender da presença física para continuar a existir por dentro.


A separação causa sempre algum alarme,  isso faz parte da nossa natureza relacional. O que muda, quando o apego tem tempo e condições para se construir, é que esse alarme já não ameaça a própria ligação. A criança consegue sentir, mesmo na ausência do adulto: «ele continua a ser meu, e eu continuo a ser dele.»


Segurar a ligação na ausência


A esse conseguir agarrar-se, Neufeld chama segurar a ligação na ausência — a capacidade de manter o sentido interno de ligação ao adulto mesmo quando ele não está fisicamente presente. É como se a criança tivesse construído, por dentro, uma representação suficientemente viva e estável desse adulto, capaz de a acompanhar, de a fazer sentir menos sozinha, mesmo na sua ausência.


Isto não acontece automaticamente. Precisa de tempo, de repetição, de uma relação suficientemente profunda para que essa representação interna se forme. Não é uma conquista da idade, é uma conquista da relação.


O segundo marcador são os sentimentos mistos (mixed feelings). Quando uma criança consegue sentir, em simultâneo, a vontade de ficar perto do adulto que ama e a curiosidade genuína de ir explorar — sem que uma emoção destrua a outra — algo amadureceu por dentro. Este equilíbrio emocional também ajuda a que a separação diária seja emocionalmente suportável.


Para aprofundar a forma como este interior se constrói, sugerimos a leitura de A Fundação da Maturidade aqui no nosso blog.



O papel da escola — e da ponte

Para Neufeld, a questão não é se a criança vai ou não à escola. É se a escola está organizada de forma a que a criança possa construir uma ligação real com os adultos que ali a acolhem.


E isso requer algo muito concreto: a ajuda activa dos pais nessa ponte. Quando os pais conseguem apresentar, no sentido mais profundo do termo, a escola e os seus adultos à criança, estando presentes nessa transferência, a criança pode construir apego também naquele contexto. A separação diária passa então a acontecer dentro de uma rede de ligações, não no vazio.


O problema surge quando essa ponte não existe: quando os pais não têm possibilidade de ajudar nessa transferência, ou quando os adultos da escola não estão disponíveis, por sobrecarga, por rotação constante, por condições de trabalho que o não permitem,  para estabelecer essa ligação com a criança.


O que algumas escolas Waldorf estão a fazer com a licença sabática é reconhecer precisamente isto: que o desenvolvimento tem o seu próprio tempo, que a coerência pedagógica começa antes de a criança entrar pela porta, e que quem cuida também precisa de condições para o fazer bem.


Uma pergunta aberta


Ao longo dos anos, esta questão passou por nós de formas diferentes, como educadoras, como mães, como pessoas que pensam sobre o desenvolvimento da criança pequena todos os dias.


E não temos uma resposta arrumada. O que temos é a convicção de que a pergunta merece existir:  sem julgamento, sem receita, com honestidade.


Esta reflexão recomeçou, aliás, de um post da @desabafosdeducadora que nos pediu a nossa perspectiva. Ficámos a pensar nele durante dias. E percebemos que era precisamente aqui que queríamos chegar.


Se és educadora ou educador, se és mãe ou pai que atravessou ou está a atravessar esta tensão, gostaríamos muito de ouvir a tua história. O que sentiste. O que escolherias hoje, se pudesses. O que achas que falta mudar, nas escolas, nas políticas, na forma como a sociedade olha para este tema.


Os comentários estão abertos. E estamos aqui para ler.



Neufeld, G. & Maté, G. (2021). O Seu Filho Precisa de Si. Ideias de Ler.


💛

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