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Doula - conversa com Mónica Santos

Atualizado: 28 de set. de 2021

1. Que é a Doula Mónica?

Esta é difícil de responder… A Doula Mónica é uma mulher em construção, que a partir do cuidar vai-se auto-revelando um pouco a cada dia. Nascida no meio das artes musicais e manuais, a partir destas tenho feito o meu percurso. Mas ao ser escolhida para ser mãe, o

meu estar no mundo ganhou uma nova afinação. Daqui surgiu a oportunidade de vir-a-ser cuidadora que serve mães e as suas famílias. Honrar, celebrar e cuidar das mães durante a gravidez, parto e, sobretudo, pós-parto é entendido por mim como um acto de reconhecimento do sagrado, num processo de co-criação mas também restaurador a nível sistémico. Assim sendo, apresento-me como doula tradicional, defensora do

arquétipo de cuidadora, baseando o meu trabalho no resgate de práticas de cariz

ancestral (reservatórios de amor, memória, conhecimento, sabedoria) e facilitando às

mães lugares-espaços de escuta, respiração e (re)descobertas, numa construção pessoal, a seu tempo, a seu ritmo… tudo a partir do cuidar.


2. Como nasceu esta vontade?

A vontade de um trabalhar direccionado para as mães nasceu a partir da dor. De dores físicas advindas de desafios acarretados pelas dificuldades em amamentar o meu primeiro filho. O apoio que na altura recebi ampliou a minha visão do estar em comunidade e da sua importância para uma mãe acabada de nascer. De repente vi-me envolta por várias mães, de entre profissionais, vizinhas, amigas, colegas ... Percebi

imediatamente o novo caminho que devia seguir.


3. Como nasce uma mãe, um pai, um cuidador?

Claro que é uma opinião muito pessoal, mas olho para o nascimento de uma mãe muito para além do processo fisiológico. Este último claramente que impacta sobre o corpo-mente e alma da mãe, e pode funcionar como gatilho para o que está por vir. E o que podemos esperar? Encontros com a própria sombra, para os quais o pai e outros cuidadores também são convidados. Porque da sombra vemos tudo! A sombra, de um ponto de vista da psicologia junguiana, é basicamente tudo o que relegamos da nossa consciência, todas aquelas qualidades que nos envergonham, que não promovem auto-estima (pelo menos inicialmente), que não queremos reconhecer como fazendo parte de

nós. Permanecer em contacto com estas qualidades amplia-nos a consciência. Através destas, a mãe e o pai vão aprendendo, vão integrando, vão assumindo, vão reconhecendo, vão mergulhando na parentalidade. Ser um cuidador é todo um processo de auto-conhecimento e tal vivência–decisão carece de tempo, prática, apoio e amor.


4. Que cuidados devemos ter com uma recém-família, uma recém-mãe, um recém-nascido?

Quem cuida de uma recém-família deve assumir uma atitude de reverência perante o nascimento. Importa respeitar e validar as necessidades da família, defender e viabilizar a criação de um espaço acolhedor e seguro (que permita ao casal, expressar-se de forma honesta e sem receios), promover o acesso a informações fidedignas que apoiem os pais para a tomada de algumas decisões, apoiar os pais na criação de uma rede de apoio a médio prazo e, não menos importante, facilitar momentos e contextos de respiração,paragem/repouso e beleza.

No fundo, práticas baseadas no património biológico de ser-se humano, e por isso universais. Mas acima de tudo, assim…

“Como Escuto os outros?

Como se todos fossem o meu Mestre

Dizendo-me as suas preciosas últimas palavras”

Hafiz


5. O que é o fechamento do corpo?

É uma tradição que remete a práticas ancestrais para o pós-parto, oriunda das

necessidades/design fisiológicos da mulher parida.

Durante a gravidez e o parto, o nosso corpo físico e energético expande-se por forma a ser casa e, no final, passagem para outro ser. Podemos perceber essa abertura através da presença da relaxina, uma hormona que permite elasticidade aos tecidos, ligamentos, tendões; através da expansão do volume sanguíneo; ou da abertura da pelve. Do ponto de vista energético, psicológico, espiritual, essas expansões também se manifestam ao nível de memórias e de receios e ansiedades em relação ao futuro… Daqui a importância de fechar o corpo da mãe. A sua prática permite à mãe agradecer e honrar a experiência de co-criação, celebrar esse refúgio-abrigo que é o ventre, integrar gradualmente essa fragilidade/vulnerabilidade que a abertura traz, delimitar novos contornos físicos e tecidos da alma, reencontrando o seu Eu no encerrar-Se.

O fechamento do corpo é, assim, uma prática-ritual que celebra a natureza cíclica da vida, honrando e reconhecendo a transição/entrada/iniciação para a maternidade.

Através da presença da água, ervas medicinais, óleos e panos, facilita-se uma prática de cuidado, colo, presença, escuta, celebração, honrando a mãe que escolhe habitar-se.

Para mães após o parto, seja vaginal, cesariana, após aborto/perda gestacional ou adopção... à medida que o pós-parto vai decorrendo ou passados alguns anos, ao longo dos quais o útero ainda pulsa ao relembrar a experiência do parto.


6. O que é a Matrescência?

Matrescência.

É um conceito cunhado pela antropóloga Dane Raphael, em 1973, e que remete para um processo de adaptação/transição após a “desestruturação emocional” e física que se dá após o parto.

A antropóloga estabeleceu um paralelo entre o processo de transformação de uma mulher em mãe e a adolescência em relação à transformação da criança em jovem. Porque ambos aludem a alterações hormonais, fisiológicas, identitárias e emocionais, com impactos profundos para todos. É uma troca de pele. E essa troca implica sentimentos, emoções e experiências que ganham novos contornos e dimensões: a intensidade, a ambivalência, a novidade, os excessos, a melancolia, a solidão, a incompreensão, os medos e o amor.

É uma crise vital que constitui uma oportunidade de crescimento pessoal… desde que a mãe tenha o devido apoio. Porque na ausência de uma aldeia, surgem disfunções e desarmonias em jeito de depressões e distúrbios emocionais – um grito de alerta e um espelhar de uma sociedade disfuncional e anti-puérpera..




1 commentaire


Andreia Leao
Andreia Leao
08 mars 2021

Muitos parabéns pelo post! Doula, a profissão pela qual estou tão agradecida nos partos dos meu filhos mais novos❤️❤️❤️❤️. Edifiquemos as doulas, a minha companhia no pré, parto e pós parto ❤️❤️❤️❤️

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