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Creches e Jardim de Infância- Grupos hetero ou homogéneos, e porquê?

Atualizado: 11 de jan.

Hoje queremos falar deste assunto que nos parece mais urgente que nunca.

Porque a história nos tem mostrado que a seguir a grandes crises, surgem sempre grandes mudanças, pensámos que podemos utilizar este momento, em que o mundo lentamente recomeça a voltar à "normalidade", para questionar essa dita normalidade. E, não será esta a altura para repensar tudo aquilo que sentimos que é a norma, mas que está mais do que na altura, de deixar de ser?


Para muitos pode ser novidade mas, dentro do mundo da pedagogia Waldorf até 2010 não se contemplava a ideia de que as crianças antes dos 3 anos frequentassem qualquer instituição escolar ou de cuidados exterior à família. Ou seja, defendia-se que as crianças dessa idade deveriam estar em casa, com os pais, ou parentes, ou alguém que lhes pudesse proporcionar o ambiente, espaço e tempo que verdadeiramente necessitam.


Não quer dizer que não houvessem locais que o oferecessem esta possibilidade, claro que os havia, mas eram a excepção. A nossa escola, por exemplo, era e continua a ser a única com oferta de creche em Portugal. No entanto hoje, felizmente, surgiram diversas opções.


Com a expansão das ofertas educativas, e da própria pedagogia pelo mundo, onde as realidades sociais e/ou culturais não permitem às famílias optarem por ficar com as suas crianças, ou por os pais escolhem outras opções para as suas famílias, em Junho de 2010, fez-se mais um

Congresso dos 0-3/4, intitulado "A Dignidade da Criança", em Dornach, na Suiça, a casa mãe da Antroposofia, o Goetheanum.


O curioso é que nesse mesmo ano, nós na nossa "Casa" tínhamos acabado de ter uma inspeção da Segurança Social que nos obrigava a mudar a nossa forma de viver o dia-a-dia, visto que nos era agora proibido mantermos as salas heterogéneas em Creche. Teríamos de separar as crianças por grupos de idades.

Para nós este era um requisito que não fazia sentido, segundo a nossa perspectiva pedagógica mas, como temos de obedecer à lei, assim o fizemos. No entanto, como a casa não esticava, tivemos de abdicar de ter bebés, visto agora precisarmos de utilizar a sala de dormir para colocar o grupo dos 1-2 anos e ainda transformar outra sala exclusivamente para sala de refeições. E assim o fizemos.

Ora sendo nós a única creche Waldorf do país não tínhamos mais ninguém com quem discutir estas decisões, e nesse ano, decidimos que duas de nós iam ao congresso para escutar o que se estava a decidir por este mundo fora, no universo da pedagogia Waldorf. O congresso abrange pessoas de cerca de 30 nacionalidades diferentes, haveriam de certeza, muitas experiências a escutar.


Não foi surpresa, para nós, que em todos os países que estavam agora a abrir as portas a crianças de 0-3/4, ninguém nunca colocou a hipótese de não se criarem espaços o mais parecido a uma casa familiar, tal como nós tínhamos feito até esse ano.

Os nossos vizinhos espanhóis também se estavam a deparar com a mesma situação e, nesse ano iniciou-se a Associação Madres de Dia (com base antroposófica), para colmatar esse impedimento por parte das autoridades. Ou seja, uma Associação de Amas/Cuidadores que poderiam cuidar de crianças em casa, como numa família. Algo que vemos em expansão no nosso pais, neste momento, para grande felicidade nossa. (Amas credenciadas em Portugal)


E isto leva-nos à questão: - Se o Ministério da Educação, percebe e defende as salas heterogéneas, na educação chamada pré-escolar, pois esta é a oferta da rede pública, porque considerou a Segurança Social, há onze anos atrás, que em idades menores os benefícios de uma convivência que imita a vida em família/comunidade não era a mais adequada?

Pensamos que possivelmente nunca terão lido Maria Montessori:



"É uma coisa muito anti-natural e cruel juntar pessoas da mesma idade. É uma das coisas cruéis que fazemos às crianças: quebramos o fio da vida social, não há alimento para a vida social. ”

(Maria Montessori, 1949)


Pensamos que ninguém concorda que na vida não nos separamos por idade. Não andamos por aí a dividirmo-nos por bairros ou empresas e trabalhos consoante a nossa data de nascimento, então porque o fazemos com as nossas escolas?

Sim, pois uma grande maioria de estabelecimentos de ensino privado, ou as IPSS, também o faz, mesmo no dito pré-escolar!

No mundo de hoje, creio que todos concordamos, que onde as comunidades são compostas por pessoas com origens diferentes, bem como de diferentes idades, e ideologias diferentes, a vida torna-se alegre e vibrante, temos novas experiências, e todos crescemos.


Então da mesma forma, quando se trata de aprendizagem e educação e cuidados na primeira infância, as crianças também não deveriam ser agrupadas pela sua idade. Então porque o fazemos? E se uma das grandes defesas da Creche é "promover" a sociabilidade da criança, porque o fazemos através de uma prática anti-social?


As salas de idades mistas em creches e jardins de infância essas sim, permitem que as crianças façam parte de uma comunidade diversa e alimentem o seu crescimento social e intelectual.

Este modelo permite construir confiança e segurança nas crianças mais novas, bem como aprimorar as suas habilidades linguísticas e comportamentais, ao mesmo tempo, que maximiza o seu potencial criativo e cognitivo. E, por outro lado, as crianças mais velhas também beneficiam do agrupamento de idades mistas porque lhes permite "orientar" as crianças mais novas, o que se desenvolve o seu sentimento de responsabilidade e a habilidade da empatia.


As crianças mais novas que trabalham em grupos de idades heterogéneas também são capazes de contribuir para actividades complexas e relacionar-se bem com outras crianças à medida que aprendem a se fazer entender melhor.


E como não nos cansamos de referir, as brincadeiras com idades variadas só aumentam o potencial para a aprendizagem e o desenvolvimento na primeira infância.


Pois permite-se que as crianças mais novas aprendam com os amigos mais velhos, e os pequenos obtêm mais apoio emocional e aprendizagem social com as crianças mais velhas do que com as de sua idade.


As crianças mais velhas, por outro lado, também praticam o cuidar e desenvolvem habilidades vitais de liderança, ao cuidar dos seus companheiros mais novos. Incutir qualidades de liderança desde o início torna-os mais independentes e pro-activos em relação às oportunidades.

E ao compreender a importância das boas maneiras e da responsabilidade social, através dos seu cuidadores, as crianças mais velhas podem demonstrar o mesmo às crianças mais novas.

Além disso, os mais pequenos podem olhar para os mais velhos como modelos e ao colocarem em prática o que aprendem à medida que crescem, ganham confiança e segurança de que crescer é bom!


Além de que, é especialmente desafiante quando reúnes, por exemplo, um grupo de crianças de dois anos sem as habilidades verbais para se comunicarem efectivamente, na fase do "roubo" de brinquedos do outro, da incapacidade de compartilhar ou do “eu, eu, eu”, dos 2/3 anos... ninguém merece ter 10 ou 15 gémeos!

Deixamos o resultado de um inquérito feito a uma pequena amostra de educadores. Pensámos que ajudaria a reflectirmos na realidades das nossas crianças.


GRUPOS HOMOGÉNEOS


Benefícios:


· Esta é a solução que faz um interface melhor com a maioria das instituições ( visto a maioria optar por esta prática) e com a compreensão dos pais em geral ( que não distinguem a primeira infância da idade escolar).


· Os grupos da mesma idade tornam a gama de actividades e brincadeiras mais uniforme. É mais fácil para o adulto atender às necessidades do grupo. ( a nossa interpretação: - é mais fácil de gerir ou dá menos trabalho, mas podemos vos provar o oposto! )


Desafios:


· Nos Grupos da mesma idade experimentamos mais competição, e ficam presos em cenários de brincadeira repetitivos. ( Onde já falamos disso? Aqui!)


· As crianças mais velhas do jardim de infância podem se tornar muito barulhentas, agressivas e selvagens quando estão todas num grupo juntos. (Não existe agente suavizante)


· É difícil ter 20 (ou mais) crianças a passar pela experiência da mudança dos 6 anos, todas no mesmo ano. Ou 15 com o despertar do eu, aos 3 anos em creche.



GRUPOS HETERÓGENEOS


Benefícios:

o As crianças mais novas são capazes de expandir as suas habilidades e as mais velhas são capazes de nutrir e ajudar a cuidar das crianças mais novas. Pode ser como um ambiente familiar amoroso onde as crianças têm consideração pelas habilidades umas das outras.


o Depois de janeiro (em que todos já estão bem integrados), há verdadeiramente a hipótese de trabalhar de forma diferente tanto com as crianças mais novas como com as mais velhas. As crianças mais novas ajudam os mais velhos a não se tornarem endurecidas prematuramente.


o Fornece uma experiência extremamente valiosa para o filho único. As forças do coração

e a vontade da criança mais velha pode ser envolvidas ao ajudar os mais novos e os mais novos podem usar as crianças mais velhas como modelos, ao mesmo tempo em que são incentivadas a ter a sua própria idade. Num ambiente de idades variadas, companheiros de brincadeira mais velhos lançam as fundações que atraem as crianças mais novas para brincadeiras sociais colaborativas.


o As crianças mais novas aprendem com as crianças mais velhas e as crianças mais velhas sentem-se "importantes "quando são capazes de ajudar. As crianças mais velhas ajudam as mais novas a serem bem-humoradas sobre sua imaturidade e as crianças mais novas sentem-se menos vulneráveis ​​quando são apoiadas para entrar nas rotinas com menos intervenção do adulto. São construídas relações de confiança.

o As crianças mais "carentes" têm mais chances de fazer amizades em grupos de várias idades.

o As crianças mais novas temperam e suavizam as crianças mais velhas. Existe uma maior possibilidade de lembrarem a sua própria inocência e cuidar dela.

o As crianças mais novas admiram as crianças mais velhas e aspiram a privilégios futuros. E alimentam a sua ansia pela oportunidade de fazer essas coisas no próximo ano, elas ajudam a carregar o entusiasmo pelo currículo anual. O anseio por eventos futuros ajuda-os a crescer nas capacidades que os permitem alcançar. ( nas escolas Waldorf o currículo são as crianças que temos e os ritmos do anos ver aqui)

o Boas relações lúdicas são formadas nas interações das crianças que influenciarão o brincar harmonioso no recreio nos anos posteriores.


o As crianças quando forem para o primeiro ciclo já formaram laços fortes com as do segundo anos e seguintes, se seguirem para/nas mesmas escolas. Misturar grupos de idades ajuda a construir tolerância para diferenças individuais e, assim, ajudam a reduzir a competição.

o Grupos de idades mistas oferecem às crianças a vantagem de ficar com um mesmo adulto por mais de um ano, normalmente.


o As crianças mais velhas e mais novas equilibram-se. Quando as crianças mais velhas passam através da mudança / crise dos seis anos de idade, as crianças mais novas reacendem nas crianças mais velhas a emoção por um brincar bonito, animado e fantasioso.


o É mais fácil, como educador, atender a uma variedade de necessidades individuais e as crianças não ficam facilmente presas a certos tipos de brincar. “As crianças mais novas são o fermento do grupo. Elas fazem as coisas crescer. "

o Grupos de idades variadas oferecem maior diversidade. Existe uma grande disparidade entre os estágios de desenvolvimento na primeira infância e as crianças são capazes de encontrar os seus iguais num grupo que abranja uma diferença de 1 1/2 a 2 anos. Isso também ajuda o educador a receber sinais mais precisos já na fase do Jardim de infância, quanto à colocação adequada das crianças que estão verdadeiramente prontas para o Primeiro Ano, e as de Creche quanto à passagem para o Jardim-de-infância.


o Um filho primogénito numa família tem a oportunidade de ser o filho mais novo num grupo misto e a criança mais nova numa família pode ser a criança mais velha no grupo.


o As regras sociais e de cortesia tornam-se importantes (ou seja, esperar que os mais novos já estejam vestidos, comido, etc..).



Desafios:


Em jardim de infância:

o Equilibrar as necessidades do grupo em termos artísticos e nas história para as diferentes faixas etárias. No entanto, com um 1 1/2 de idade a 2 anos, a tarefa é mais fácil (grupos dos 4 aos 6/7) . As crianças podem ser combinadas e/ou separadas conforme o apropriado, especialmente quando dois adultos trabalham juntos e podem compartilhar esta responsabilidade. As crianças mais novas podem esperar a realização das tarefas focadas das crianças mais velhas no (s) ano (s) que virão.


o As crianças mais velhas podem-se ter comportamentos mais agressivos e modelar um comportamento inadequado para os mais pequenos.


É um desafio para os mais pequenos num grupos de 22 ou mais. Mais adultos são necessários então. O tamanho do grupo deverá ser de 16 a 18 crianças, se crianças mais novas estão envolvidas ( com 3 anos).


· O adulto deve trabalhar com a imitação e autoridade ao mesmo tempo. Pode ser chocante para os mais pequenos quando o adulto se torna mais autoritário: - estamos de falar de uma autoridade amorosa, de presença e imitação, os pilares para que tudo possa fluir harmoniosamente.

· A faixa etária mista beneficia apenas se as atividades puderem ser estruturadas de modo que haja movimento e trabalho significativo real e a presença adulta para as crianças mais velhas. Se estas não são fortes, então os pequenos podem ser oprimidos. Uma distribuição equilibrada de idades também é importante.


Em creche:


  • O modelo de mistura de idades deve ser sustentado por altos níveis de conexão, prática e emocional, entre a equipe e as crianças.


  • Ter atenção em criar ambientes separados, ao longo do dia, os mais velhos precisam de desafios e os mais pequenos de protecção.


Ou seja, para nós, parece que não há dúvidas... ( e qual a tua opinião?)


E chamamos a atenção, para algo que todos já ouvimos, e que vem ao encontro da teoria clássica de Mildred Parten, sobre os estágios de desenvolvimento da brincadeira, que as crianças de dois ou três anos de idade são incapazes de brincadeiras sociais colaborativas. Pois quando colocadas juntas, elas envolvem-se no que chamamos de brincadeira paralela; eles brincam lado a lado, prestando atenção uma à outra, mas não fundindo as suas brincadeira numa actividade socialmente combinada


Mas num estudo ( ver texto de Peter Gray), investigadores observaram crianças de dois e cinco anos a brincar a pares.

Todas as crianças frequentavam a mesma instituição de diferentes idades, de modo que se conheciam antes da experiência.

Na situação de brincar, as crianças receberam um novo brinquedo e foram convidadas a brincar com ele. Os pesquisadores fizeram comparações de três tipos de pares: crianças de dois anos com outras crianças de dois anos, crianças de cinco anos com outras crianças de cinco anos e crianças de dois anos com crianças de cinco anos.

Não é de surpreender que os pares de crianças de cinco anos brincassem de maneiras muito mais complexas - e muito mais socialmente - do que os pares de crianças de dois anos. Mas mais interessante, as crianças de cinco anos brincavam no mesmo nível avançado quando emparelhadas com crianças de dois anos de idade como faziam quando emparelhadas com outras crianças de cinco anos, e usavam uma variedade de técnicas verbais e não verbais para levar as crianças de dois anos ao seu nível de brincar. Porque as crianças de cinco anos estruturavam os papéis para as crianças de dois anos na brincadeira compartilhada e ajudavam-nas a desempenhar os papéis - fornecendo-lhes os acessórios apropriados, por exemplo, e instruindo-as no que fazer - as de dois anos de idade eram "bem sucedidas" na brincadeira, sociais e cooperativas com as crianças de cinco anos que estavam além das suas supostas capacidades!


Ou seja o problemas é que andamos a apoiar as nossas decisões pedagógicas numa maioria de investigações que são feitas em ambientes não naturais, ou seja fabricados, como as salas escolares em vez de ambientes de brincar naturais, em família, na rua, ou grupos de idades mistas em salas escolares.


Como nos diz Peter Gray:

" Porque é muito mais conveniente estudar o Brincar em ambientes segregados por idade controlados por adultos (como as salas de aula típicas de escolas) do que em ambientes mistos por idade mais naturais (como ao ar livre em bairros), e porque a segregação por idade se encaixa no paradigma de pesquisa padrão da psicologia do desenvolvimento, a maioria das pesquisas sobre brincadeiras sociais infantis têm-se concentrado nas brincadeiras entre crianças da mesma idade. Na verdade, se seres de outro planeta tentassem aprender sobre as interações sociais de nossos filhos ao ler as nossas publicações de psicologia do desenvolvimento, os alienígenas poderiam muito bem concluir que as crianças interagem apenas com adultos e com colegas quase exatamente da mesma idade. Eles certamente, perguntar-se-iam como e porquê isolamos as crianças de seis anos das de nove ou as de nove dos adolescentes. "


De acordo com vossa experiência, quais são os benefícios e desafios de ter os mais velhos e

crianças mais novas juntas em grupos de várias idades ou colocadas em grupos separados? Qual preferem? E Porquê? Gostávamos de ler as vossas experiências.




BIBLIOGRAFIA:

A mente da criança: mente absorvente - Maria Montessori, 1949. Editado em português, por Capa Comum, Brasil


The Special Value of Children’s Age-Mixed Play de Peter Gray, 2007, Boston College



1 Comment


Andreia Leao
Andreia Leao
Jul 04, 2021

Tão bom este artigo Sara e Felipa! Nós temos essa heterogeneidade cá em casa, e vemos que os nosso filhos desenvolvem muitas capacidades com o convívio e entre ajuda uns com os outros. Na escola, no caso dos mais novos: A Emma está no pré-escolar, com crianças entre os 2 quase 3 anos, até aos 5/6 anos e ela fala muito da experiência com os mais novos, e sente-se especial por ser agora das mais velhas, a que já consegue fazer muitas coisas e ajudar os mais novos! O Samuel está numa sala só com meninos da idade dele, e notamos que alguns comportamentos de irritabilidade foram vincados depois de ter ido para o Colégio. Felizmente que brincam juntos com as outras salas, e…

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