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A Criança e a Infância, conceitos recentes? (Parte 3)

Atualizado: 28 de set. de 2021




Morse , foi o principal responsável por enviar a primeira mensagem elétrica pública transmitida neste planeta e, tal como Gutenberg, ele não fazia ideia onde a sua invenção levaria a humanidade...


Não importa onde ou como vives, ou qual a tua religião, é Morse, e não Darwin, quem dita como os negócios devem ser administrados e como tua consciência deve ser orientada.


A diferença entre Darwin e Morse é: Darwin ofereceu-nos idéias incorporadas na linguagem. As suas ideias são explícitas, discutíveis e refutáveis. Na verdade, elas têm sido debatidas publicamente desde a década de 1860 nas salas de aula, nos media e até mesmo em tribunais. Mas Morse ofereceu-nos ideias incorporadas em tecnologia, ou seja, elas estavam escondidas da vista e, portanto, nunca aptas a ser discutidas. As ideias de Morse eram, em certo sentido, irrefutáveis, porque ninguém sabia que a comunicação elétrica implicava quaisquer ideias. Como é geralmente o caso com a tecnologia de comunicação, as pessoas presumiram que o telégrafo era um meio de transporte neutro, que não tinha nenhuma visão do mundo própria. As únicas perguntas feitas a Morse diziam respeito a se a máquina funcionaria ou não, quão longe o seu alcance, e quão caro seu desenvolvimento. Estão a ver quantas vezes esta ideia se reproduziu, até aos dias de hoje, com todas as invenções tecnológicas?


Marshall McLuhan disse-nos que quando o homem vive num Mundo das Massas, a natureza humana transforma-se e a identidade privada funde-se com o todo corporativo. "Mass Man" é um fenómeno da velocidade da eletricidade, não uma quantidade física. O Mass Man surgiu pela primeira vez, como um fenómeno na era do rádio, mas ele tornou-se real, de uma forma quase despercebida, com o telégrafo elétrico.


Deu-se a primeira ligação entre transporte e comunicação. Antes do telégrafo, todas as mensagens, incluindo aquelas expressas por escrito, podiam mover-se tão rápido quanto um ser humano poderia transportá-las. O telégrafo eliminou de uma só vez o tempo e o espaço como dimensões da comunicação humana. O que nos levou a um mundo de simultaneidade e imediatismo que ia para além da experiência humana. Ao faze-lo, eliminou também o estilo pessoal, na verdade, a própria personalidade humana, como um aspecto da comunicação. O telégrafo criou a “indústria de notícias”, ao transformar a informação de um bem pessoal numa mercadoria de valor mundial.


O que o telégrafo fez foi criar um mundo de informações anónimas e descontextualizadas em que as diferenças entre os homens se tornaram cada vez mais irrelevantes. O telégrafo também colocou a história em segundo plano e ampliou o presente instantâneo e simultâneo. Mas o mais relevante foi que, o telégrafo deu início ao processo de tornar as informações incontroláveis.

Notícias de parte alguma significava agora notícias de todos os lugares, sobre tudo, e sem nenhum critério particular. O telégrafo criou uma audiência e um mercado não apenas para as notícias, mas para notícias fragmentadas, descontínuas e essencialmente irrelevantes, que até hoje são a principal mercadoria da indústria noticiosa.


Sei que nos estamos a esticar um pouco com o assunto apenas para dizer que o telégrafo ajudou a criar uma nova definição de inteligência, pois à medida que o mundo foi inundado de informações, a questão de quanto se sabia assumiu mais importância do que a questão de como usar o que cada um sabia.


E como devem estar a conseguir ver, tudo isso teve o maior impacto na infância. A infância, como vimos a falar, era a consequência de um ambiente no qual uma forma particular de informação, controlada exclusivamente pelos adultos, era disponibilizada em etapas às crianças de formas consideradas psicologicamente assimiláveis. A manutenção da infância dependia dos princípios da gestão de informação e da aprendizagem sequencial. Mas o telégrafo deu início ao processo de arrancar o controle da informação das casas e da escola. Alterou o tipo de informação a que as crianças poderiam ter acesso, qual a sua qualidade e quantidade, qual a sequência e as circunstâncias em que seriam vivenciadas. Claro, que se as possibilidades da comunicação elétrica tivessem sido esgotadas pelo telégrafo, é possível que a estrutura social e intelectual do mundo letrado tivesse permanecido em grande parte intacta e que a infância em particular não tivesse sido muito afectada. Mas o telégrafo foi apenas um prenúncio do que estava por vir, como todos bem sabemos.


Paralelamente ao desenvolvimento da comunicação elétrica, desenvolveu-se o que Daniel Boorstin chamou de "revolução gráfica", o aparecimento do mundo simbólico das Imagens, desenhos animados, bandas desenhadas, pósteres e anúncios. Juntas, as revoluções eletrónica e gráfica representaram um cenário de um um poderoso assalto à linguagem e à alfabetização, uma reformulação do mundo das ideias em ícones e imagens à velocidade da luz.


A importância deste desenvolvimento não nos parece exagerada. Além da velocidade da transmissão tornar a gestão da informação impossível, a imagem produzida em massa mudou a forma da própria informação - de discursiva para não-discursiva, de proposicional para apresentacional, de racionalista para emotiva.


A linguagem é uma abstração sobre a experiência, enquanto as imagens são representações concretas da experiência. Uma imagem pode, de facto, valer mais que mil palavras, mas em nenhum sentido é o equivalente a mil palavras, ou cem, ou duas. Palavras e imagens são diferentes universos do discurso, pois uma palavra é sempre e acima de tudo uma ideia, uma invenção, por assim dizer, da imaginação. A palavra impressa exige do leitor uma resposta activa ao seu "conteúdo de verdade". Nem sempre alguém está em posição de fazer essa avaliação, mas, em teoria, a avaliação pode ser feita - basta apenas alguém ter conhecimento ou experiência suficiente. Mas as imagens exigem do observador uma resposta estética. Elas invocam as nossas emoções, não a nossa razão. Elas pedem para sentir, não para pensar.


Com a fotografia, depois os filmes, a televisão, e recentemente a internet, a "imagem" de alguém tornou-se mais importante do que a sua agenda, a "imagem" do um produto é mais importante do que sua utilidade.


Durante o período entre 1850 e 1950, um enorme esforço foi despendido para conseguir que o Mundo ocidental se tornasse alfabetizado, para elevar os valores da comunidade letrada. Mas, exatamente ao mesmo tempo, a velocidade da eletricidade e as imagens produzidas em massa trabalhavam em conjunto para minar esse esforço e atitude.


Foi na televisão, portanto, que podemos ver mais claramente como e porque a base histórica para uma linha divisória entre a infância e a idade adulta começou a ser inequivocamente apagada. Primeiro no respeito à ideia de acessibilidade à informação, que, por sua vez, está relacionada ao segundo aspecto, a forma como a informação é codificada.


Como dissémos, a cultura do livro do século XVI ao XX criou o monopólio do conhecimento - separando crianças e adultos. Um adulto totalmente alfabetizado tinha acesso a todas as informações sagradas e profanas dos livros, às muitas formas de literatura, a todos os segredos registados da experiência humana. As crianças, na sua maioria, não. E por isso, elas eram crianças. E por isso eram obrigadas a ir à escola. Pois aprender a ler não é simplesmente uma questão de aprender a "decifrar o código".


Quando se aprende a ler, aprende-se uma maneira peculiar de nos comportarmos, da qual a imobilidade física é apenas uma das características. O auto-domínio é um desafio não apenas para o corpo, mas também para a mente. Frases, parágrafos e páginas desenrolam-se lentamente, em sequência e de acordo com uma lógica que está longe de ser intuitiva. Na leitura, é preciso esperar para obter a resposta, esperar para chegar à conclusão. E enquanto se espera, somos obrigados a avaliar a validade das frases, ou pelo menos saber quando e em que condições suspender o julgamento crítico.


A linguagem da televisão, e hoje da internet, embora seja ouvida e por vezes assuma alguma importância, é a imagem da realidade, que domina a consciência do espectador e carrega os significados críticos. Para dizer da forma mais simples possível, as pessoas assistem à televisão e aos media digitais. Elas não os lêem! Nem tão pouco ouvem muito, se formos a ser realistas. Elas assistem... Isto é verdade para adultos e crianças, intelectuais e trabalhadores, tolos e sábios. Os media não são uma sala de aula. Mas sim, um espetáculo de imagens, um meio pictográfico.


Assistir aos media hoje em dia, requer reconhecimento instantâneo de padrões, não uma decodificação analítica posterior. Requer percepção, não concepção. Os media oferecem uma alternativa bastante primitiva, mas irresistível, à lógica linear e sequencial da palavra impressa e tende a tornar irrelevante os rigores de uma educação letrada. Damerall ressalta: “Nenhuma criança ou adulto melhora a sua capacidade de assistir à televisão. As habilidades necessárias são tão elementares que ainda não ouvimos falar de nenhuma deficiência em assistir televisão ”. E o mesmo se aplica a qualquer media digital, hoje em dia.


Podemos concluir, então, que a televisão foi a primeira a corroer a linha divisória entre a infância e a idade adulta de três maneiras, todas relacionadas com a sua acessibilidade indiferenciada: primeiro, porque não requer nenhuma instrução para apreender a sua forma; segundo, porque não faz exigências complexas à mente ou ao comportamento; e por fim, porque não separa/diferencia o seu público. E todos nós temos esta realidade diante dos olhos, basta observamos como qualquer criança apreende e domina a tecnologia hoje em dia, sem precisar de saber ler ou escrever!


Em relação ao último aspecto, isso acontecia não apenas porque a forma simbólica da televisão não apresentava mistérios cognitivos, mas também porque um aparelho de televisão não podia ser escondido numa gaveta ou colocada numa prateleira alta, fora do alcance das crianças: a sua forma física, tanto quanto sua forma simbólica, não se prestava à exclusividade. Se formos a analisar, os novos media ( computadores portáteis, tablets, e smartphones) dão-nos essa possibilidade, ou seja, inicialmente colocou-se a questão da privacidade/exclusividade da informação, para além da transportabilidade, claro. No entanto, os adultos rapidamente passaram a colocá-los à disposição da infância, tal como o tinham feito com a televisão. A diferença maior sendo a televisão ainda era sujeita a um horário e uma programação, e hoje em dia temos os canais temáticos, que ajudam a uma pre-selecção do que é assistido ( não vamos aqui discutir o seu conteúdo ou qualidade), no entanto um smartphone ou qualquer outro aparelho digital permite que com um toque o conteúdo mude automaticamente, e todos sabemos o quão fácil isso é de acontecer...


Voltando à televisão, com o seu surgimento recriaram-se as condições de comunicação que existiam nos séculos XIV e XV. Biologicamente, estamos todos equipados para ver e interpretar imagens e ouvir a linguagem necessária para fornecer um contexto para a maioria dessas imagens. O novo ambiente dos media que vieram depois da televisão fornecem a todos, simultaneamente, as mesmas informações. Dadas as condições que descrevemos, os media não consegue esconder nenhum segredo. Sem segredos, é claro, como já tínhamos concluído não pode haver infância.


Outro facto evidente, a televisão foi o primeiro media a operar praticamente 24 horas por dia, tanto a sua forma física quanto simbólica tornaram desnecessário - na verdade, impossível - segregar o seu público, o que requer um fornecimento contínuo de informações novas e interessantes para envolver e manter esse público. Assim, a televisão teve de fazer uso de todos os tabus existentes na cultura. A televisão precisava de material. E precisava dele de uma forma bem diferente dos outros media. A televisão não era apenas um meio pictórico, era o primeiro meio centrado no presente e na velocidade da luz. Que diremos hoje da internet?


Assim, à medida que os anos passaram, passámos de uma programação de curta duração e ainda muito em redor da informação para, a partir da década de 70, surgirem as telenovelas, os Concursos, os Concurso de Misses, o espreitar as vidas das celebridades, os Prémios Anuais da Musica, do Cinema, etc., as batalhas para o espectador comum tornar-se numa estrela seja da música, dança, ou por outro motivo qualquer, misturado com programas educativos, de debate e conferências de imprensa, e mais tarde os canais temáticos, tudo surgiu pela necessidade de haver material para a televisão, não devido à realidade. A televisão não regista eventos - ela criou-os. Como a escrita alfabética e o livro impresso, a televisão abriu segredos, tornou público o que antes era privado.


Mas, ao contrário da escrita e da impressa escrita, a televisão não tinha como encerrar as coisas. O grande paradoxo da alfabetização era que, ao tornar os segredos acessíveis, simultaneamente criava um obstáculo à sua disponibilidade. Devíamos qualificar-nos para os mistérios mais profundos da página impressa, submetendo-nos aos rigores de uma educação escolar. Era preciso progredir lentamente, sequencialmente, até mesmo dolorosamente, à medida que a capacidade de auto-contenção e pensamento conceitual era enriquecida e expandida. A partir da televisão, ao contrário, obtivemos uma tecnologia de admissão aberta à qual não há restrições físicas, económicas, cognitivas ou imaginativas. Os de seis e os de sessenta anos são igualmente qualificados para experimentar o que a televisão ou qualquer media actual tem para oferecer. A televisão, neste sentido, foi o meio por excelência de igualdade de comunicação, superou a própria linguagem oral. Pois, ao falar, podemos sempre sussurrar para que as crianças não ouçam. Ou podemos usar palavras que elas podem não entender. Mas a televisão e os media actuais não podem sussurrar, e as suas imagens são concretas e auto-explicativas. As crianças veem tudo o que eles mostram. O efeito mais óbvio e geral dessa situação é eliminar a exclusividade do conhecimento mundano e, portanto, eliminar uma das principais diferenças entre a infância e a idade adulta.


O papel social é formado pelas condições do ambiente de informação específico, e esse é certamente o caso da categoria social da infância. As crianças são um grupo de pessoas que não sabem certas coisas que os adultos sabem. Na Idade Média não havia crianças porque não existiam meios para os adultos saberem informações exclusivas. Na era de Gutenberg, esse meio surgiu. Na era da televisão, ele foi dissolvido.


Os novos Media fizeram com que as distinções entre grupos de idade pareçam hostis e, portanto, são hostis à ideia de uma ordem social hierárquica. Considerem, por exemplo, o caso dos modos de linguagem. Bem recentemente, os adultos não usavam certas palavras na presença de crianças, que, por sua vez, não deveriam usá-las na presença de adultos. A questão de saber se as crianças conheciam ou não tais palavras de outros contextos era irrelevante. A propriedade social exigia que uma distinção pública fosse mantida entre o mundo simbólico de um adulto e o da criança.

Por parte das crianças, a contenção refletia uma compreensão do seu lugar na hierarquia social e, em particular, a compreensão de que ainda não tinham direito à expressão pública de tais atitudes. Mas, é claro, com a indefinição das distinções de papéis, essa deferência linguística perdeu o sentido. Hoje, esse costume foi corroído tão rapidamente que aqueles que o praticam são considerados "picuinhas". Parece que estamos de volta ao século XIV, onde nenhuma palavra era considerada imprópria para um ouvido jovem.


Acreditamos que esteja suficientemente claro que, por causa das suas revelações implacáveis ​​de todos os segredos culturais, os media representam um sério desafio tanto para a autoridade da idade adulta quanto para a curiosidade das crianças.


À medida que os media foram mesclando os dois mundos, à medida que a tensão criada pelos segredos a serem desvendados diminui, a previsão do espanto muda. A curiosidade é substituída pelo cinismo ou, pior ainda, pela arrogância. Ficamos com crianças que não contam com a autoridade dos adultos, mas com notícias vindas do nada. Ficamos com crianças que recebem respostas a perguntas que nunca fizeram. Ficamos, em suma, sem crianças.


Cada meio de comunicação que necessita de se conectar a uma tomada de parede contribuiu com a sua parte para libertar as crianças da protecção da sua sensibilidade infantil.


Estamos bem cientes de que a palavra hipocrisia às vezes é usada para descrever uma situação em que o conhecimento público e o conhecimento privado são rigidamente separados. Mas se se pode dizer que há um lado bom da da hipocrisia este é, afinal, permitir um certo idealismo social. No caso da infância, por exemplo, o sigilo é praticado para manter as condições de um crescimento saudável e harmonioso. A infância, como idealmente a pensamos, não pode existir sem uma certa dose de hipocrisia.


Todos os peritos sobre o desenvolvimento infantil afirmam que é necessário que as crianças acreditem que os adultos têm controle sobre os seus impulsos para a violência e que têm uma concepção clara do certo e do errado. Por meio dessas crenças, como nos disse Bruno Bettelheim, as crianças podem desenvolver os sentimentos positivos sobre si mesmas que lhes dão a força para nutrir a sua racionalidade, que, por sua vez, as sustentará na adversidade.


Por meio do milagre dos símbolos e da eletricidade, os nossos filhos sabem tudo o que as outras pessoas sabem - o bom e o mau. Nada é misterioso, nada é incrível, nada é escondido da vista do público.

Na verdade, é uma observação comum, particularmente favorecida pelos executivos dos media quando sob ataque, que, independentemente do que se diga sobre o impacto dos media nos jovens, as crianças de hoje estão mais bem informadas do que qualquer grupo anterior de jovens. A metáfora geralmente empregue é que os media são a janela para o mundo.


O que está totalmente correcto, mas porque a consideramos como um sinal de progresso em relação à infância, esse é para nós um mistério.


Que significa que nossos filhos estejam mais bem informados do que nunca? Que eles saibam o que os mais velhos sabem?


Para nós significa que eles então tornaram-se de novo mini-adultos, ou, pelo menos, semelhantes a adultos. Significa - para usar uma metáfora de Postman - que, ao "...ter acesso ao fruto anteriormente proibido da informação dos adultos, eles são expulsos do jardim da infância."


Se isto significa que a infância está a desaparecer ou que a idade adulta está a desaparecer, é apenas uma questão de como se deseja definir o problema: sem um conceito claro do que significa ser um adulto, não pode haver um conceito claro do que significa ser uma criança.


O nosso mundo de informação à velocidade da luz está a “desaparecer” com a infância - também podemos dizer que está a desaparecer com a idade adulta.


Se pararem uns minutos e olharem ,com olhos de ver (não assistirem), para todo o tipo de anúncios quer de cremes, vestuários e afins. Que veem?


Escolhemos este tipo de anúncios, pois são uma evidência explícita que apoia a nossa visão de que temos uma sociedade que quer que as diferenças entre adultos e crianças desapareça. Embora muitos outros anúncios impliquem isso, estes falam diretamente a tal ponto que, na nossa cultura, agora é considerado desejável que uma mãe não pareça mais velha do que a sua filha, que a filha criança possa se vestir e usar maquilhagem como a mãe, etc.


A capacidade de auto-contenção, a tolerância para a gratificação atrasada, uma habilidade sofisticada de pensar conceitualmente e sequencialmente, uma preocupação com a continuidade histórica e com o futuro, uma alta valorização da razão e da ordem hierárquica, tudo isto eram, características do adulto. Onde estão estas capacidades hoje em dia? Quem as transmite?


À medida que os Media passaram a alfabetização para a periferia da cultura e ocuparam o seu lugar no centro, diferentes atitudes e traços de carácter passam a ser valorizados e uma nova definição reduzida de idade adulta começa a emergir. É uma definição que apesar de não excluir as crianças resulta numa nova configuração das etapas da vida. Na nossa Era parece-nos que existem três. De um lado, a infância ( com fronteiras muito mal definidas) - do outro a senilidade. No meio, existe o que podemos chamar de uma criança adulta ou de um adulto infantil?


Como a arena simbólica em que ocorre o crescimento humano mudou a sua forma e conteúdo e, em particular, mudou no sentido de não exigir distinção entre as sensibilidades infantil e adulta, inevitavelmente os dois estágios da vida fundiram-se num!


Os media visuais, para simplificar (e, tememos, repetidamente), não nos chamam a atenção para ideias, que são abstratas, distantes, complexas e sequenciais, mas para personalidades, que são concretas, vívidas e holísticas.


O que isto significa é que a forma simbólica da informação política também mudou radicalmente. O julgamento político também foi transformado de uma avaliação intelectual de proposições numa resposta intuitiva e emocional à totalidade de uma imagem. Na era da Imagem, as pessoas não concordam ou discordam dos políticos, mas gostam ou não gostam deles. Os media redefiniram o que se entende por “julgamento político sólido” ao torná-lo uma questão estética em vez de lógica. Uma criança de dez anos mal alfabetizada pode interpretar ou pelo menos responder às informações “fornecidas” por um candidato com a mesma facilidade e rapidez que uma pessoa de cinquenta anos bem informada. Na verdade, possivelmente mais intensamente. Em qualquer caso, a linguagem e a lógica não têm quase nada a ver com o assunto. Pensem connosco, ideias políticas à parte, e chamando um evento político que marcou os últimos anos...


Quantos cidadãos em idade de votar leram algo que o demissionário presidente Trump possa ter escrito?


Simplesmente ao fazermos perguntas como estas ficamos a saber, imediatamente, quão irrelevantes elas são, percebermos qual o papel mínimo que as premissas ideológicas, a consistência lógica e a força, ou a aptidão com a linguagem desempenham na avaliação de uma imagem.


E também nos parece que desde a era da televisão, a política foi afastada da mente dos adultos. Vivemos não de ideais mas de seguir as massas e a imagem que mais nos apela.


Está bem estabelecido que a maioria dos cidadãos mundiais recebe a maior parte da sua informação sobre o mundo pela televisão, ou internet. Que tipo de experiência têm eles? Que tipo de informação recebem? Que perspectivas e percepções são disponibilizadas? Em que sentido o público é informado? Até que ponto qualquer informação hoje em dia é projetada para uma mente adulta?


Somos a primeira geração de pais que fomos anestesiados pela televisão e agora estamos imersos no mundo digital, das redes sociais, e do efémero.


A soberania ampliada dos Media, contribuiu para que muitos pais perdessem a confiança na sua capacidade de criar os filhos. Porque acreditam que as informações e os instintos que têm sobre a criação dos filhos não são confiáveis, tendo em conta toda a informação e imagens de o que é ser um bom pai/educador, e como esta muda consoante a moda do momento. Como consequência, os pais não apenas não resistem à influência dos Media, como também procuram especialistas que supostamente sabem o que é melhor para as crianças. Assim, para além de psicólogos, assistentes sociais, orientadores, professores e outros que representam um ponto de vista institucional temos lado a lado figuras sociais, artistas e celebridades, que invadem amplas áreas de autoridade parental e educativa.

O que isto significa é que há uma perda na intimidade, genuinidade, dependência e lealdade que tradicionalmente caracterizam o relacionamento entre pais e filhos, somos a primeira geração de pais em que a opinião de pares, sempre foi considerada mais válida que a nossa. Com os Media: Aprendemos a confiar nos outros mais que em nós próprios.


Na verdade, alguns especialista hoje, defendem que a relação pai-filho hoje em é essencialmente danosa, desde pais helicóptero a pais melhor-amigo, perdeu-se o papel de pai apenas, e muitos defendem que as crianças são mais bem sevidas por instituições do que pela sua família nuclear. E vamos agora falar de instituições?


Vamos ter de ir de novo um pouco atrás. Outro factor devastador para o poder da família foi o movimento de libertação das mulheres. Para que não sejamos mal interpretadas neste ponto, devemos dizer imediatamente que a libertação das mulheres de papéis sociais limitados é um dos efeitos verdadeiramente humanos da revolução tecnológica e merece o nosso total apoio. Mas não podemos negar que, à medida que as mulheres encontraram o seu lugar nos negócios, nas artes, na indústria e nas profissões, houve um sério declínio na força e no significado dos padrões tradicionais de cuidado infantil. Talvez porque não estava lá ninguém para ver?


Quaisquer que sejam as críticas que possam ser feitas ao papel exclusivo das mulheres como cuidadoras, o facto é que foram as mulheres, e somente as mulheres, durante séculos que foram as supervisoras da infância, moldando-a e protegendo-a. Assim, à medida que os pais de ambos os sexos abrem caminho no mundo, os filhos tornaram-se um fardo e, cada vez mais, é considerado melhor que sua infância termine o mais cedo possível. E aí surgem as respostas educativas de cada vez se escolarizar mais cedo, em que cada vez tentamos estimular ( uma das nossas palavras odiadas) com o intuito de se saltarem etapas, para existir um suposto auto-controlo biológico, que permita às crianças estarem mais e mais horas controladas e a fazer mais horas de trabalho que a maioria dos adultos. Em que todos fechamos os olhos a que podemos acelerar a aquisição de conhecimento por parte das crianças e a sua quantidade, mas a biologia essa não a podemos acelerar, e todos sabemos que biologicamente mais não é melhor. E afinal que adianta todo o “conhecimento“ se, biologicamente não há maturidade para a sua compreensão?


O que nos leva à escola como instituição, na realidade ela continua a ser a única instituição pública que nos resta com base no pressuposto de que existem diferenças importantes entre a infância e a idade adulta e de que os adultos têm coisas de valor para ensinar às crianças. Mas, com o declínio da imagem da infância e da sua importância, a actualidade das escolas está bem documentada e pensamos que nem precisamos de a referir. Através de uma estrutura de comunicação radicalmente mudada, e de reformas educativas sucessivas e sem visão, elas tornaram-se (para citar Marshall McLuhan de novo) casas de detenção em vez de centros de atenção - tendo em conta que isto foi dito há 40 anos não deixa de ser mais assustador ainda!


E, consequentemente os educadores, é claro, ficaram confusos sobre o que se espera que façam com as crianças. Por exemplo, à medida que o ensino da alfabetização se torna mais precoce, com educadores sem formação para o fazer, pois na realidade é uma medida que não se adequa a esta etapa do desenvolvimento, grande parte dos educadores perderam o entusiasmo por esta profissão e perguntam-se se não a deveriam abandonar por completo. Outros, que perderam por completo o sentido crítico, seguem as tendências e não percebem que estão a matar a infância. Se formos a um outro exemplo numa fase mais à frente (igualmente deprimente): nalguns países as escolas, exigem das crianças de dez ou doze anos que elas sejam divididas segundo categorias: as que vão para o “treino profissional”, e as que poderão aprofundar os seus estudos, um claro sintoma do ressurgimento dos adultos em miniatura. A infância voltou a a ser uma fase para se ultrapassar e não para se viver! O que parece uma solução óptima para a sociedade, mas a nossa ver, mais uma vez estamos a matar fases, e a submeter as crianças a pressões sociais prematuras, numa fase em que elas nem sabe quem são, quanto mais que(m) poderão um dia ser! Temos um sistema que vê apenas o que a criança poderá ser, mas esqueceu-se que a criança já É desde o dia em que nasceu!


É evidente que as escolas refletem as tendências sociais com muito mais força do que podem direccioná-las e são quase impotentes a opor-se a elas. No entanto, parece-nos que a escola será a última defesa contra o desaparecimento da infância. E como as escolas são feitas por pessoas, cabe aos seus profissionais e aos pais ou cuidadores pensarem que caminho estamos a tomar. Há que resistir!


A resistência envolve conceber a paternidade e a educação como um acto de rebelião contra a cultura actual.


E para isso precisamos de criar comunidades, e uma união que foi outra coisa que se tem vindo a perder.


Hoje em dia parece ser quase anti-natura permanecer próximo de uma família extensa para que as crianças possam experimentar, diariamente, o significado do parentesco e o valor da deferência e responsabilidade para com os mais velhos. Da mesma forma, insistir para que os filhos aprendam a disciplina da gratificação atrasada, ou modéstia na sua sexualidade, ou auto-contenção nas maneiras, na linguagem e no estilo é colocar-se em oposição a quase todas as tendências sociais. E é claro, garantir que os filhos trabalhem arduamente para se alfabetizarem consome muito tempo e é até muito dispendioso. O que implica que os pais tenham menos tempo para estar com os filhos.


O que levou a que ser mais rebelde do que tudo é o tentar controlar o acesso aos Media dos filhos. Na verdade, existem duas maneiras de o fazer isso. A primeira é limitar a exposição das crianças aos Media. A segunda é monitorizar cuidadosamente o que a que elas são expostas e fornecer-lhes uma crítica contínua dos temas e valores do conteúdo dos Media. Ambos são muito difíceis de fazer e requerem um nível de atenção que a maioria dos pais não está preparada para dar à educação dos filhos, e também porque já cresceram na época da televisão, e o seu sentido crítico foi esmorecendo.


No entanto, existem pais e educadores que se comprometem a fazer todas estas coisas, mas na verdade estão a desafiar as directrizes da sua cultura. Esses pais não estão apenas a ajudar os seus filhos a ter uma infância, mas, ao mesmo tempo, a criar uma espécie de elite. O que para nós é triste, pois o bom-senso não deveria ser uma excepção mas sim a regra, e toda a infância tem o direito de ser protegida.


A nosso ver, não é concebível que a nossa cultura esqueça que precisamos de crianças. Mas está a meio caminho de se esquecer que as crianças precisam de uma infância.


Mas está em cada um de nós o primeiro passo para a mudança!


E tu? Qual a tua visão? Concordas com o conceito de que estamos a deixar a infância desaparecer?


P.S. Se se quiserem juntem-se a nós para discutir estes temas, juntem-se ao nosso workshop. Mais informações aqui no site em - A Acontecer.



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