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O Mito de que se formos "boas mães" sacrificarmo-nos é nosso dever... (pelo bem dos nossos filhos?!)

Atualizado: 22 de fev. de 2022


A minha rotina matinal tornou-se essencial para definir o meu dia e quem sou. É algo que crio com a maior intenção e actualizo sazonalmente. Mas nem sempre foi assim...


Uma das muitas vantagens de vir viver para a Holanda foi a aquisição de tempo. Pela primeira vez na vida, desde que terminei o curso, estava sem trabalhar fora de casa e com a regalia de ter tempo para mim e de geri-lo da forma que melhor me servisse. Mas, a verdade é que estava tão embrenhada na rotina do estar ocupada, que me demorou quase 4 anos a desconstruir esta mentalidade. E também a perceber a importância do auto-cuidado ( o self-care tão em moda ).


Creio que nós mulheres, sem nos apercebermos, vivemos todas no mito de que enquanto temos filhos em casa não podemos ter tempo para nós, pois estamos a roubar-lhes esse tempo. E se temos esse tempo (aquelas que optam por ser mães a tempo inteiro), este deverá ser usado para satisfazer todas as necessidades da família menos as nossas. Pois como justificamos aos outros que somos previligiadas e/ou dondocas ou então anti-feministas? ( Sim, é verdade... qualquer escolga hoje em dia, será sempre alvo de crítica, já pensaram nisso?). E assim vivemos, nessa culpa constante, independentemente da escolha que fizemos na vida, e acabamos por prejudicar todos ao nosso redor ao pensar em servi-los sempre antes de nós mesmas. Estou a fazer sentido?


Depois de ouvir imensas opiniões, como as acima descritas, e ter-me debatido com a culpa: ou de ter tempo para mim, ou de achar que deveria preencher cada minuto desse tempo a pensar nos membros da minha família e nas suas necessidades, cheguei à conclusão de que ao estarmos a dar tudo de nós as outros acabamos por nos tornar narcisistas. (Esta dedução não é minha, é da Suzy Lula e quando a ouvi também achei ridícula. Mas seria?)


Algo que tenho aprendido é que tudo o que me incomoda, ou provoca algum tipo de aversão, devo explorar interiormente, muito mais até do que tudo aquilo que me interessa naturalmente.


Como poderia estar a ser narcisista se me coloco no final da fila das necessidades da nossa família?


Fui então perceber as grandes diferenças entre amor-próprio e narcisismo. E penso que é aí que quase todas nos perdemos...


Amor-próprio vs Narcisismo


1. Necessidade de reconhecimento


Amor-Próprio: Aqueles que têm uma auto-estima elevada e praticam amor próprio não precisam de reconhecimento ou de parabéns pelas suas acções. Estão bem cientes dos seus esforços e sucessos, e esse conhecimento é mais do que suficiente para se sentirem realizados.


Narcisismo: Se uma árvore cai numa floresta e ninguém está por perto para ouvir, ela faz algum barulho? Se um narcisista alcança o sucesso e ninguém está por perto para testemunhá-lo, é realmente um sucesso? A resposta neste caso é não. Sem reconhecimento e elogio, eles podiam muito bem nem ter realizado absolutamente nada. Isso faz com que a vitória pareça vazia, porque eles só recebem satisfação com a admiração dos outros.


2. A humildade é uma virtude


Amor-Próprio: Têm um forte sentido empático e humildade. Apoiam e incentivam os outros a fazerem o seu melhor e têm orgulho dos seus sucessos.


Narcisismo: Não conseguem ver os outros a ter sucesso. Não conseguem evitar o ciúme e encontrarão uma maneira de minar o seu sucesso para sentir que ainda estão em vantagem. A frase comum “a miséria adora companhia” é muito apropriada nessas circunstâncias.


3. Percepção das emoções dos outros


Amor-Próprio: São receptivos às emoções dos outros e podem enfrentar as suas lutas e dores. Vão oferecer conselhos e assistência se puderem, e preocupam-se genuinamente com o resultado da situação daqueles que estão em dificuldades.


Narcisismo: Embora possam fingir preocupação, genuinamente não se importam com as lutas dos outros. Na verdade, eles alimentam-se disso. Quando alguém não está a ir bem neste mundo, isso fá-los sentir-se melhor sobre si mesmos.


4. Percepção dos outros como indivíduos


Amor próprio: A valorização dos outros é um forte atributo de quem tem auto-estima elevada. Eles vêem as outras pessoas como valiosas e celebram a sua existência. Tendem a ser boas amigas, porque são incrivelmente solidárias e entendem que é necessário todo tipo de pessoas para criar um mundo totalmente funcional.


Narcisismo: Não veem os outros como sendo valiosos. O único valor que eles veem nos outros é a oportunidade de usá-los em seu próprio benefício. Os narcisistas tendem a se cercar de outros narcisistas. As pessoas “especiais”. A "elite." Ninguém mais é digno de seu tempo.



Competição com os pares


Amor próprio: Com uma auto-estima alta, é fácil ver os outros como iguais. Cada pessoa é apenas isso, outra pessoa a tentar fazer as suas coisas com sucesso neste mundo e a tentar alcançar a felicidade.


Narcisismo: Os narcisistas têm a necessidade de estar sempre melhor do que os outros, ou pelo menos dar a ilusão de que estão. Eles prosperam com o domínio e a manipulação. Eles não são verdadeiramente felizes a menos que sintam que têm o controle total. Precisam que todos os seus esforços sejam celebrados e que eles próprios sejam adorados.


Ou seja Amor próprio é o acto sem remorsos de se aceitar a si mesmo, colocar-nos em primeiro lugar e ter orgulho e confiança nas nossas realizações. Esta é uma mentalidade saudável, ao contrário do narcisismo.


O narcisismo é um transtorno de personalidade em que os indivíduos têm um sentido inflamado de auto-importância e uma total falta de empatia. Acreditam que são superiores à maioria das pessoas e só podem ser compreendidos por aqueles que também são tão especiais como eles. Essa sensação de prestígio tem um preço muito alto e é incrivelmente delicada. Pessoas com transtornos narcisistas precisam de garantias constantes dos seus pares, porque a sua auto-estima é, na realidade, incrivelmente frágil.


Conseguem identificar algumas destas características narcisistas em vocês? Se não parabéns, estão no caminho certo e encontraram o equilíbrio interno e familiar que muitas de nós demoramos décadas a alcançar, ou então podem simplesmente estar em negação, como infelizmente muitas mães que conhecemos... esperamos que pertençam ao primeiro grupo.


Se se conseguiram rever em algum ou vários pontos, bem-vindas ao clube, estamos aqui para nos apoiar na mudança de atitude e crenças!


Pois a verdade é que ao não olharmos para as nossas necessidades estamos a descuidar o nosso amor-próprio e ao largar o nosso amor-próprio estamos inadvertidamente a entrar no mundo do narcisismo.


Tornámos-nos mães super-mulher que fazem tudo. A emancipação das mulheres trouxe-nos ao mesmo status do "homem dominante" mas com o dobro das responsabilidades, pois achámos que deveríamos acumular tudo. Um emprego das nove às cinco ou seis ou sete, crianças para cuidar, sejamos mães solteiras ou não acabamos por ter tudo a nosso cargo, refeições, casa, compras, actividades extra-curriculares, festas e celebrações várias, apesar de algumas sermos sortudas e termos companheiros que ajudam!


O síndrome da super-mãe produziu em nós uma personalidade chamada de tipo A, que contribui para o desequilíbrio e as expectativas irreais impostas pelas e nas mães que pensam que podem fazer tudo, ou seja que têm o controle total. Ou seja, estamos a ser narcisistas.


Pois enfrentemos a realidade, ninguém consegue fazer tudo sózinho, e porque o deveríamos fazer sózinhas!?

E, se o conseguimos fazer, algo ficou para trás, e esse algo na maioria das vezes somo nós!


Acabamos então por desenvolver características narcisistas ao esperamos que o mundo inteiro nos reconheça e glorifique pelo nosso sacrifício. E , quando este reconhecimento não acontece "cai o carmo e a trindade", e todos ao nosso redor são ingratos e egoístas. Exigimos dos nossos filhos um reconhecimento e admiração, até um amor incondicional totalmente irrealista e sufocante, e muitas vezes vivemos a vida deles como sendo a nossa. Os seus sucessos e falhas são as nossos. Entramos numa postura que faz com que todos andem em "bicos dos pés" ao nosso redor, ao esperarmos que adivinhem o que nos vais na cabeça pois seria o "mínimo" que poderiam fazer tendo em conta tudo o que fazemos, sem nos apercebemos de que fomos nós que muitas vezes assumimos mais do que podemos fazer ...


Criticamos todas e todos aqueles que não tomam as mesmas decisões que nós, e têm a audácia de ter outras opções de vida. Aqueles que se atrevem a tirar tempo para cuidar deles próprios, ou seja que reservam tempo para si para se equilibrarem e poderem ser aqueles pais que nós não estamos a conseguir ser! Acabamos esgotadas a todos os níveis físico, emocional, social e sem nos apercebermos colocamos a culpa em tudo ao nosso redor para não termos de olhar para dentro de nós e perceber como somos vítimas das nossas próprias escolhas.


Deixámos-nos prender nestas crenças e culpas e está na altura de as identificarmos e libertarmo-nos. Devemo-lo a nós mesmas, aos nossos, e principalmente às nossas filhas que não queremos que sigam o mesmo caminho que nós até aqui.


Quando aprendemos a ser livres, transmitimos aos nossos filhos essa virtude e a capacidade de medir os sacrifícios em prol das outras pessoas ou do que a sociedade "espera" de nós, e a saber que não podemos dar aquilo que não temos.


Amor envolve renúncia sim, mas também, a liberdade de saber quando exaltar a nossa vontade.


O melhor presente que podemos dar aos outros é sermos a melhor versão de nós mesmas.


Pois qual a piada de receber um presente dentro de uma caixa lindíssima se lá dentro esta está vazia?

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1 bình luận


Andreia Leao
Andreia Leao
03 thg 2, 2021

Muito, muito bom amigas! Parabéns pelo texto🥰

Thích
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