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As Lágrimas Que Fazem Crescer

Porque é que a criança não amadurece por conseguir o que quer, e o que o adulto pode fazer quando não há nada a resolver.


A pergunta que todos fazemos


Há uma pergunta que aparece, mais cedo ou mais tarde, a quem cuida de crianças pequenas: quando ela chora por algo que não pode ter, devo deixá-la chorar ou devo consolá-la?

A pergunta parece pedir que escolhamos um campo: os que “deixam chorar” e os que “consolam”. Mas a escolha é falsa. E desfaz-se inteira no momento em que percebemos o que aquele choro está, na verdade, a fazer.


Duas tristezas que não são iguais


Nem todo o choro é igual. Há o choro da frustração: a criança ainda acredita que pode mudar aquilo, ainda empurra contra a parede, ainda procura uma saída. É um choro de protesto, cheio de energia, virado para fora.

E há outro choro, mais fundo e mais quieto: o da futilidade. É o choro de quem sentiu, lá no fundo, que aquilo não vai mudar. Gordon Neufeld chama-lhe lágrimas de futilidade, e considera-o um dos momentos mais importantes do desenvolvimento emocional. Porque é exactamente nessa passagem: de “isto tem de mudar” para “isto não vai mudar”, que a criança se torna capaz de se adaptar à realidade tal como ela é.


O que as lágrimas fazem


Quando o cérebro regista que algo não pode ser mudado, a energia que estava ao serviço de insistir tem de ir para algum lado. No caminho saudável, converte-se: vira tristeza, vira lágrima. E quando essa lágrima é sentida até ao fim, segue-se quase sempre uma coisa que reconhecemos de imediato: a criança acalma, suaviza, descansa.

Esse descanso não é resignação. É adaptação. É o sinal de que algo, por dentro, se reorganizou em torno de uma realidade nova. A criança não conseguiu o que queria e, ainda assim, saiu maior do episódio. Foi mudada pela experiência, em vez de endurecida contra ela.

É por isto que dizemos que a maturidade não nasce da satisfação. Nenhuma criança amadurece por ter sempre o que quer. Amadurece por poder sentir, em segurança, a tristeza do que não pode ter.


A criança que não chora


Há uma ideia muito instalada de que a criança mais saudável é a que reage menos, a que não colapsa, não protesta, “não dá trabalho”. Olhamos para ela e vemos força.

Mas Neufeld faz aqui uma distinção que vale a pena ouvir com atenção: a criança que se defendeu de sentir parece mais resiliente, mas não é. Endureceu. Para deixar de doer, baixou o volume a todos os sentimentos vulneráveis, e com eles foi também a porta por onde a adaptação entra. A verdadeira resiliência não é tornar-se insensível para conseguir funcionar sob pressão. É poder continuar a sentir (incluindo a tristeza) e regressar ao equilíbrio a partir daí.

A criança que chora o que não muda está, paradoxalmente, num lugar mais saudável do que a que aprendeu a não chorar de todo.



Quando as lágrimas não encontram caminho


E se a tristeza não vier? A energia da frustração não desaparece, procura outra saída. Sai por outro  lado: em mais insistência, em agitação, em empurrões, naquilo a que muitas vezes chamamos “ser difícil”.

Visto assim, boa parte do comportamento que nos esgota deixa de ser desafio e passa a ser pista. É frustração que não encontrou as suas lágrimas. Não precisa de mais firmeza para parar,  precisa de um lugar seguro onde possa, finalmente, suavizar.


Ficar ao lado, não contra


É aqui que o papel do adulto se revela, e é mais simples, e mais exigente, do que imaginávamos. Não é evitar a tristeza nem fazê-la passar depressa. É recolher a criança e ficar ao lado da emoção, não contra ela.

Na prática, parece-se com isto: não distrair, não argumentar, não apressar. Estar. Emprestar a nossa calma enquanto a tempestade passa. “Não consigo mudar isto para ti. Mas fico aqui contigo enquanto estás triste.” É a relação segura que torna o choro possível, e é o choro que torna a adaptação possível.

Há nisto um alívio para quem cuida: não temos de resolver o que não tem solução. Só temos de não deixar a criança sozinha com isso.


O que Pikler e Waldorf sempre protegeram


Quem acompanha bebés e crianças muito pequenas conhece este território por outras palavras. A continuidade do mesmo cuidador, que Pikler e Steiner defendem, é precisamente o que permite que a criança se entregue à tristeza, só choramos a sério ao colo de quem é nosso. O ritmo previsível que a pedagogia Waldorf protege diz ao sistema nervoso da criança: estás em segurança, podes baixar a guarda.

E o gesto de não interromper: de confiar que a emoção tem um trabalho a completar e não a abafar com distracção é, no fundo, o mesmo gesto em três tradições. Recolher antes de orientar. Segurar antes de resolver. Nos primeiros anos, esta é a forma mais concreta de cuidar do desenvolvimento emocional: ser o porto onde a tristeza pode chegar e passar.


O que isto muda


Perceber as lágrimas de futilidade muda a pergunta com que começámos. Já não é “deixo chorar ou consolo?”, porque deixámos de ver as duas como opostas. Ficar ao lado da criança enquanto ela chora o que não muda é, ao mesmo tempo, deixá-la sentir e consolá-la, é o consolo a fazer o seu trabalho mais profundo.

Não há atalho para a adaptação. Há limites reais, há tristeza sentida em segurança, e há um adulto que não foge dela. É menos do que pensávamos ter de fazer. E é tudo.


💛 EducaSão · Laura Sanches



BIBLIOGRAFIA

Fontes primárias — Neufeld

Neufeld, G. & Maté, G. (2021). O Seu Filho Precisa de Si. Lisboa: Ideias de Ler.

Neufeld, G. A Importância das Relações. notas de conferência 

Neufeld Institute. Play and Emotion — sessão sobre resiliência e adaptação, Neufeld Institute.

Notas de webinar — Neufeld, G. & MacNamara, D. 


Leituras recomendadas — Laura Sanches


Sanches, L. Educar Com Culpa.

Sanches, L. Como Educar Crianças Desafiantes?


A adaptação acontece no coração que suaviza, não na vontade que vence.

— síntese do trabalho de Gordon Neufeld

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