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Além da Creche (in)Feliz: Como as Políticas Atuais Moldam o Futuro das Nossas Crianças


Quando a sociedade coloca as necessidades das crianças como prioridade, como defendido no nosso artigo 'O valor da creche e pré-escolar: a cultura, a economia, o poder dos pais e a saúde infantil', o futuro para as próximas gerações apresentar-se-á promissor.


Este princípio é fundamental, especialmente ao considerarmos as recentes Orientações Pedagógicas para Creches, que refletem uma abordagem centrada na criança. No entanto, ao olharmos para trás, para o programa 'Creche Feliz' lançado em 2021, percebemos uma discordância gritante entre as intenções pedagógicas e as práticas implementadas.


O programa 'Creche Feliz', com as suas decisões de aumentar o número de crianças por educador e diminuir o espaço físico disponível para cada criança, entra em flagrante contradição com o que as orientações pedagógicas de 2024 reconhecem como essencial. Enquanto as orientações mais recentes enfatizam a importância de um ambiente estimulante, seguro e adaptado às necessidades individuais de cada criança, o programa 'Creche Feliz' parece ignorar esses princípios básicos, dando prioridade à eficiência operacional sobre o bem-estar das crianças.


Esta desconexão não só desafia o progresso feito na compreensão do desenvolvimento infantil, como destacado no nosso artigo, mas também subestima o impacto a longo prazo que um ambiente de creche inadequado pode ter na saúde mental, emocional e cognitiva das crianças. As orientações de 2024 ilustram uma evolução significativa na abordagem pedagógica, que agora vê a creche não só como um ambiente de cuidado básico, mas como um espaço crucial para o crescimento holístico e o desenvolvimento abrangente da criança, enfatizando um cuidado integral que abarca todas as dimensões do seu bem-estar.


O nosso artigo 'O valor da creche e pré-escolar' salienta a interação complexa entre a educação de infância, a cultura, a economia e o poder dos pais na formação da saúde infantil. As orientações pedagógicas de 2024 parecem alinhar-se com esta visão, propondo um modelo de creche que apoia não só o desenvolvimento da criança, mas também reconhece o papel crucial dos pais e da comunidade no processo educativo. Em contraste, o programa 'Creche Feliz' falha ao impedir a criação de um ambiente que nutra estas relações e promova um desenvolvimento saudável.


Portanto, é imperativo que as políticas e o programa 'Creche Feliz' sejam revistas e reestruturado para se alinharem com as orientações pedagógicas atuais. Precisamos garantir que as creches sejam espaços onde as crianças possam prosperar, com atenção individualizada, espaços adequados e uma abordagem que valorize o seu desenvolvimento emocional, social e cognitivo. Afinal, como destacamos no nosso artigo, o verdadeiro valor da creche e do pré-escolar reside na sua capacidade de moldar positivamente a saúde, o bem-estar e o futuro das nossas crianças.


A discrepância torna-se ainda mais evidente quando consideramos a alocação de verbas para um programa que não atende às necessidades básicas das crianças e das famílias.


A atribuição de recursos significativos para o 'Creche Feliz', que falha em proporcionar um ambiente adequado para o desenvolvimento infantil, levanta questões sobre a eficácia do uso dos fundos públicos. Como destacamos no nosso artigo, existem alternativas mais benéficas, que poderiam ser consideradas, como financiar diretamente as famílias, permitindo-lhes escolher a forma de cuidado infantil que melhor atende às suas necessidades e as dos seus filhos.


Embora o alargamento das licenças parentais e o investimento em amas credenciadas sejam alternativas válidas, é igualmente crucial focar no aprimoramento da qualidade dos cuidados oferecidos nas próprias creches. Isto envolve a redução do racio de crianças por educador e o investimento em formação continuada para uma educação humanizada. Além disso, é fundamental fomentar uma conexão mais forte com a comunidade local, criando um ambiente de creche que seja não apenas seguro e estimulante, mas também integrado e responsivo às necessidades da comunidade à qual serve.


Aliado ao alargamento, investir em amas credenciadas, que possam oferecer cuidados de qualidade num ambiente mais pessoal e atencioso, representa uma abordagem mais alinhada com o que defendemos no nosso artigo. Esta opção respeita a individualidade de cada criança e proporciona um cuidado mais personalizado, algo que um programa em grande escala como o 'Creche Feliz' não consegue oferecer.


O Programa 'Creche Feliz' de 2021, não corresponde portanto às expectativas das famílias portuguesas, conforme o já revelado por um estudo do INE em 2019. Este estudo não só mostra uma diminuição no número médio de filhos, mas também evidencia uma forte tendência de defesa de incentivos à natalidade, incluindo horários de trabalho flexíveis para pais com filhos pequenos e melhor acesso a creches e jardins de infância de qualidade.


Esta perspectiva sugere que muitas famílias portuguesas valorizam a possibilidade de conciliar a vida profissional com o cuidado familiar, e prefeririam apoios que lhes permitissem uma maior flexibilidade e escolha no cuidado dos seus filhos. Portanto, em vez de programas como o 'Creche Feliz', que falham em oferecer um ambiente adequado para o desenvolvimento infantil, seria mais benéfico considerar alternativas como financiamento direto às famílias, alargamento das licenças parentais e utilização de amas credenciadas, que respeitem as preferências individuais das famílias e promovam o bem-estar das crianças.


É fundamental que as políticas públicas e os programas de cuidado infantil, como o 'Creche Feliz', sejam repensados e reestruturados. Deve-se considerar a alocação de verbas de maneira que realmente beneficie as crianças e as famílias, respeitando as suas necessidades básicas e promovendo o seu desenvolvimento integral. Como já dissemos no nosso artigo, as decisões sobre a educação e cuidados das crianças não devem ser baseadas apenas em considerações económicas, mas no supremo interesse das crianças e famílias, garantindo assim um futuro mais promissor para todos.


BIBLIOGRAFIA:


1. Instituto Nacional de Estatística (2019) Lisboa, Portugal: INE.



3.Alexandra Marques (coord.), Ana Azevedo, Liliana Marques, Maria Assunção Folque, Sara Barros Araújo. (2024). Orientações Pedagógicas para Creches. Ministério da Educação/Direção-Geral da Educação (DGE)



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